8 de julho de 2013

Corvos - Por Salomon

Corvos - Por Salomon


   Era chegada àquela época do ano em que as afáveis aves de penas brancas, azuis e cinzas se deslocavam para aquela região a fim de perpetuar a espécie e fugir do inverno rigoroso que já chegara. Algumas dezenas cruzavam o céu quase que desesperadas rumo àquela comarca, mais especificamente em um lugar no meio das extensas terras cercadas por grandes matas nos sertões do Ceara. O nome desse lugar onde esses pássaros se deslocavam, teve seu nome baseado nas aves que ali se refugiavam, o tão falado “pombal”.

Sempre naqueles invernos rigorosos, antes do frio maior se aproximar, via-se no céu o fenômeno que muitos já conhecem bem: a migração das pombas para se proteger do inverno e se reproduzir, deslocando-se milhares de quilômetros.

    O menino de pele morena queimada pelo sol impiedoso dos sertões e aparentava ter apenas quinze ou dezesseis anos de idade, mas que na verdade era mais velho do que isso, já fizera seus dezoito anos, mas mesmo que a idade não permitisse, levava por sobre o ombro sua espingarda carregada para um único disparo. Mortal.

   De família pobre, poucas vezes havia passado fome, aprendera a caçar cedo, muito cedo, recebera a espingarda de presente do próprio pai, cassava para ter algo a mais na mesa além do feijão com arroz, mas muito mais do que uma necessidade, era um esporte. Caçar lhe proporcionava diversão. Caçar se tornara um habito. Cassar foi o que ele decidiu fazer naquela noite.

Havia acordado cedo naquele dia, faltando ainda horas para o dia amanhecer completamente. Assim teria vantagem de encontrar suas aves ainda descansando nos ninhos das copas das arvores e por sorte, até mesmo no gramado verde e macio dos pombais, pois havia os pombos que não sabiam voar e permanecia paciente nos ninhos em solo aguardando suas penas se desenvolver. (isso normalmente de acordo com minha fonte).

Caminhava por entre veredas e trilhas de mato, pensou ter se perdido no escuro, arrependera-se de não ter levado uma lanterna, confiava que a lua cheia o ajudaria a enxergar o caminho, mas não contava com umas nuvenzinhas bloquearem o brilho da lua. Por mais de uma vez pensou que estava perdido. Caminhava desvairado pelo matagal, levou quase uma hora caminhando naquela condição perturbadora até chegar a uma trilha que julgava conhecer:

“acho que é por aqui” pensava consigo mesmo.

Caminhou amedrontado por essa trilha, estava perdido e sozinho no véu escuro da noite. A espingarda lhe dava coragem de continuar caminhando, sem ela teria travado no meio do caminho depois que se perdera. Em fim.    Chegou ao final da trilha, o matagal ficara para trás, e as nuvens começavam a liberar o brilho da lua cheia. Então ele viu que finalmente depois do susto de ter se perdido, havia chegado ao “pombal”.

Logo de inicio, viu o chão repleto de pequenos ninhos, ninhos das pombas que ainda não sabiam voar, por isso faziam seus ninhos no chão, era curioso isso. Adormecidos, havia cerca de uns três ou quatro daquelas aves bem apertadinhos dentro de cada ninho, adormecidos, tremelicando com o frio. Ah sim, ele eram fofinhos, bonitinhos.

   Nas arvores, cintilavam pontos vermelhos, “pequenas frutas silvestres” assim pensava o rapaz.
Nessa hora, o rapaz precisava de toda sua experiência para aquele momento. Era a hora de “catar” os pombinhos do chão sem fazer barulho, e para isso, geralmente usava-se algo para abatê-los ainda no chão, mas o garoto tinha uma técnica. Uma técnica um pouco cruel, infalível, que exigia apenas um pouco de habilidade com a faca. Com ela, ele catava pombo por pombo ao chão, e decepava lhe a cabecinha do minúsculo corpo, descartava as cabeças, mas o resto do corpo ia para seu patuá. Era sua futura refeição ali se amontoando dentro da velha bolsa encardida de sujeira. Enquanto fazia isto, tentava ser o mais silencioso possível para que não acordassem e fugisse dali, os pequenos pombos eram retirados um por um de seus ninhos por mãos robustas, mas que tinham um toque delicado, assim, tinham suas cabecinhas decepadas antes mesmo de acordarem.  Logo os ninhos pelo chão ficaram vazios, e seu patuá ganhava volume e peso, mas ainda havia espaço. Pisando nas cabeças dos pombos pelo chão, caminhou até uma das arvores mais próximas onde avistou um ninho.

   Subiu-a com pouca dificuldade, sentou por sobre um galho pouco mais baixo, o ninho estava um pouco acima de sua cabeça. Silencio.  Novamente usou de seu toque delicado para pegar o pássaro do ninho, sentiu entre seus dedos a leveza das penas da ave. Era um pombo adulto, um pouco mais pesado do que o que esperava. Só precisava tira-lo do ninho e cortar sua cabeça, simplesmente isso, e no dia seguinte poderia comê-las assadas. Deveria ser assim.

   Com a mão cheia segurando a ave adormecida, tirou-a do ninho acima de sua cabeça, e com todo cuidado para não acorda-la, levou-a até seus olhos, e o que seus olhos viram em suas mãos o deixou estarrecido. Um susto súbito o fez apertar sem querer a ave que segurava com a mão. O pássaro de penas negras despertou, abrindo seus pequenos olhos vermelhos que cintilavam com o brilho da lua, agitou-se, batia asas e grasnava seu canto medonho:

CRUÁ, CRUÁ...

   Antes que fizesses mais barulho, teve sua cabeça cortada pelas mãos robustas, mas delicadas do menino, que assustado, atrapalhou-se e deixou o corpo da ave morta cair no chão, permaneceu segurando somente a cabeça. Estava assustado, esperava que o ninho fosse de um pombo extremamente grande, mas não era.  Aquilo era um corvo.

Desceu rapidamente da arvore, recuperado do susto, precisava voltar para casa e esquecer aquilo. Pegou a espingarda e colocou-a no ombro, era hora de ir embora, mas antes, avistou nas arvores, em todas elas, vários daqueles pontículos vermelhos. 

    Milhares Pontos vermelhos agrupados em pares? Ha não, não eram frutas, para temor do jovem, aqueles eram os olhos de milhares de outros corvos semelhantes ao que ele havia decapitado a cabeça que agora apertava em sua mão. Pequenos olhos redondos e vermelhos pareciam fita-lo furiosamente, será que eles sentiam a morte de seu semelhante?

   Medo começava a tomar conta do menino, medo descomunal, um calafrio, pernas bambeando, o corpo paralisado de receio. Havia milhares daquelas aves de penas e bico negros com os olhos vermelhos fitando-o.  Medo de que elas o atacassem. De repente um grasnar quebrou o silencio da noite deixando o menino ainda mais assustado:

CRUÁ, CRUÁ, CRUÁ...

   Estarrecido, olhou em volta, as aves ainda estavam imóveis, porém uma delas deveria estar grasnando aquele ruído maldito, mas qual? Seu coração acelerado parecia explodir no peito, tamanho o susto lhe causara aquele grasnar alto. Ainda procurava entre as arvores qual dos corvos fazia aquele barulho quando sem mais nem menos checou a própria mão, abriu-a diante dos olhos e viu a minúscula cabeça do corvo que havia decepado instantes antes, abrindo e fechando o bico negro e fitando-o com os minúsculos olhinhos vermelhos, grasnando o maldito barulho que ecoava pelo mato.

   CRUÁÁÁÁ, CRUÁÁÁ, CRUÁÁÁ!

   Com o susto, caiu para trás, tropeçando no corpo do execrado corvo.

   Sob as arvores, os outros corvos que até então se mantinham imóveis apenas observando o estranho intruso, se agitaram fazendo um alvoroço. O bater de tantas asas ao mesmo tempo fazia um barulho quase ensurdecedor, voavam e grasnavam alto. Voaram formando uma verdadeira nuvem negra no céu.

   Em pânico, o menino tentou pegar sua espingarda, mas antes que pudesse apontar para a nuvem de corvos, a nuvem avançou rapidamente contra o rapaz. Os pássaros pareciam castigando rapaz, logo com suas bicadas violentas, alguns lhe perfuravam o corpo a bicadas, outros lhe arrancavam os olhos, outros o que restava do corpo.  Pareciam feras selvagens. O menino nada mais podia fazer a não ser gritar de dor, esperando a morte que não tardaria.

   O tempo passa...

   O dia amanhece e dois roceiros compadres que usavam aquele percurso para chegar até seu lugar de plantio, se deparam com uma cena macabra. Pelo chão, havia ossos com fortes arranhões, o crânio jazia ainda com um olho e mais arranhões profundos, era um crânio humano. E nas arvores, as copas continham seus galhos turvos secos, sem folha alguma.











                                                  
                                                                †††
                                                                   


30 de abril de 2013

Claustrofobia – por Salomon

Claustrofobia – por Salomon








   Lembro-me de uma época remota em minha infância e juventude, de um acontecimento traumático que me deixou estremecido pelo resto da vida, uma experiência realmente traumática e assustadora que me tortura hoje só de lembrar o ocorrido.
   Foi realmente horrível, lembro-me de ter despertado subitamente, do que parecia ser um sono profundo ou um desmaio, ou mesmo algo semelhante a um coma.  Inicialmente achei que era noite, pois estava muito escuro e eu nada podia ver em meios às sombras que me cercavam. Também achei que estava deitado em minha cama, mas eu estava miseravelmente enganado, pois eu me encontrava em uma posição desconfortável em um local apertadíssimo, como o interior de uma caixa de papelão. Meus joelhos encostavam-se a meu queixo, eu estava totalmente encolhido e apertado no pequeno espaço.
   Tentei levantar-me, mas bati minha testa na superfície solida de madeira pesada, uma superfície que lhe servia como tampa e me aprisionava naquele espaço fechado. Lembro-me de como comecei a transpirar, o calor me fazia suar como uma cascata.
   A situação me era familiar, logo me lembrei de um conto escrito pelo mestre do terror Edgar Allan Poe, chamado “Enterro Prematuro”, onde o infeliz personagem foi dado como morto pela família e enterrado vivo no cemitério, logo depois dentro do caixão a sete palmos da superfície, ele despertou, e se viu naquela situação nada agradável.
   Logo deduzi que o mesmo acontecera comigo, que estava desconfortavelmente no interior de um caixão de madeira enterrado no cemitério da cidade, esquecido pelo mundo, condenado a morrer daquela forma. Comecei a me questionar, onde eu estava e como eu fui parar ali? Outras questões mais atormentadoras: há quanto tempo eu estou aqui? Horas? Dias? Meses talvez?
   Completamente agoniado, tentei manter a calma, a fim de economizar o oxigênio que me restava na esperança de ser descoberto e desenterrado por alguém. Mas minha tranquilidade logo se esgotou junto com minha esperança, o medo de morrer ali se tornou maior, seria uma morte lenta e funesta, mas não, eu não queria morrer daquela forma. Imagine caro leitor como é desesperador acordar de repente em um lugar escuro e apertado, sem ter a mínima noção de onde está ou como chegou ali, ou ainda: sem saber como sair dali.
   Enquanto o medo tomava conta de meu ser, sentia a sensação de ser o próprio personagem do conto de Edgar Allan Poe. Logo o medo tornou-se paranoia, eu sentia que morreria sufocado ali, pois já estava ofegante demais.
   Então entregue ao desespero e a paranoia, comecei a gritar por socorro, debatendo-me e chutando a tampa de madeira que me prendia naquele espaço apertado, debatia e gritava como um louco desesperado, como se não houvesse mais razão em minha vida.
   Então com o impacto de meus chutes, uma brecha da tampa se abriu, rapidamente, dei-lhe outro chute que fez com que a tampa se abrisse bruscamente. De repente uma iluminação forte fez-me ficar cego por alguns instantes.
   Ainda desesperado e gritando, saltei para fora, mas acabei tropeçando e cai no chão onde permaneci ainda aos berreiros debatendo-me como um louco. Até que uma voz familiar fez-me calar a boca:
-Tá doido desgraçado?- era a voz de meu irmão menor, de apenas onze anos.
-Onde estou? Quanto tempo estava preso?- perguntei-lhe enquanto recuperava aos poucos a minha visão.
-Está em casa, nossa casa, poxa você acabou a brincadeira, eu já ia te procurar-.
   Nessa hora minha visão voltava ao normal e eu pude ver que realmente estava em casa, mais precisamente no quarto que dividia com meu irmão, senti alivio ao ver a cama desarrumada, brinquedos espalhados pelo chão e um grande guarda roupas abertamente revirado.
   Pude também observar o maldito baú de madeira de onde eu havia saído colocado frente à cama onde eram depositados os brinquedos que jaziam espalhados pelo quarto. Então eu finalmente lembrei que eu havia entrado no baú na intensão de esconder de meu irmão, pois estávamos brincando de esconde-esconde. Maldito baú que usei como esconderijo.
   Logo mais, já recuperado do susto, arrastei-me para a cama e fiquei deitado pensando na experiência traumática que havia passado.  Sentia-me um completo idiota, ridiculamente estremecido por dentro, enquanto meu irmão me olhava sem nada entender.
Para distrair, perguntei por fim ao meu irmão:
-Quanto tempo levou até me achar aqui?- e ele me respondeu rindo:
Muito pouco, pois eu ainda estava contando até dez-.






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6 de janeiro de 2013

Depoimento de Canny – por Salomon


Depoimento de Canny – por Salomon


   Meu nome é Adam, mas vocês me conhecem hoje simplesmente como Canny, talvez por que esse nome lembra um pouco a raça dessa criatura pela qual eu tenho o poder de tomar forma, só que muito diferente dos outros de minha espécie.
   Quando estou em minha forma amaldiçoada, eu ganho até cinco vezes mais o tamanho e a força de um deles, e diferente dos lobisomens convencionais, eu tomo a forma completa de um lobo comum de pelugem branca, além de conseguir manter a minha mente inalterável, assim podendo raciocinar como humano independentemente dos instintos de animal carnívoro irracional que havia dentro de mim.
   Sim eu posso me transformar em um lobo de pelos brancos e com até cinco vezes seu tamanho e força de um lobo comum, isso devido a maldição que foi talhada em alma, e que lá habitaria até o ultimo dia de minha vida.
   Há muitos anos atrás, ainda em minha infância, eu costumava ficar brincando com Keibow meu cãozinho de estimação, o mais fiel e único amigo que eu tive até então, meu cão estimação, costumávamos brincar correndo nos divertindo pelas terras do nobre rico.
   Eu era filho de camponeses pobres, meus pais eram servos do nobre rico, morávamos em uma pequena casinha em suas terras onde cuidávamos, tratávamos, plantávamos e como recompensa poderíamos morar em suas propriedades e ficar com metade do que o nosso trabalho árduo rendia, trabalhávamos como escravos. Essa a forma encontrada por meu pai para a nossa sobrevivência.
   Eram extensas as terras do nobre, sua propriedade se estendia desde sua mansão até onde a vista alcançasse, para meu pai minha mãe e eu era um sufoco, um fardo pesado e rotineiro trabalhar tanto naquelas terras, todos os dias com exceção dos domingos que podíamos descansar o dia inteiro devido as tradições religiosas da região.
   Em um desses domingos, lembro-me como se fosse ontem que Keibow latia bravamente contra o horizonte contra algo longe das terras do nobre rico, enquanto eu apenas apreciava o momento na presença de meu amigo Keibow, o calor daquele finalzinho de tarde, o sol se pondo, queimando minha pele vermelhada, o vento soprando em minha face, sentindo o perfume daquela vegetação que nos cercava comtemplando a visão de ver aquele fruto de meses e meses de trabalho árduo, aquilo simplesmente me satisfazia.
   Enquanto eu desfrutava daquelas sensações simples e prazerosas daquele domingo, Keibow continuava latindo contra algo no horizonte, aquela altura o sol já havia se posto totalmente e a noite se aproximava mais e mais, a lua começava a subir alto expondo sua beleza, e então Keibow que até então se mantinha ao meu lado, correu em disparada rumo ao horizonte onde ele devia ter visto algum pássaro ou algo semelhante pousar nas terras, eu como não tinha nada mais interessante para o meu entretenimento daquele domingo chato, corri atrás de Keibow, este já se encontrava tão distante e ainda correndo, que só depois de sete minutos correndo naquela direção ele havia cessado com a correria e com os latidos então eu o alcancei, ele estava parado frente a uma floresta densa com arvores altíssima e galhos poucos folheados, naquele momento lembrei-me de todas as historias sobre criaturas medonhas e fantásticas que meus pais haviam mencionado que moravam naquela floresta.
   Eu nunca acreditei em histórias de lobisomens, mas depois daquele episodio macabro de minha vida, eu repensava sobre meus temores.
   O que eu percebi foi que Keibow já não latia corajosamente contra algo que ele havia percebido naquela floresta, agora ele simplesmente soltava no ar, sons tristes de um choro melancólico canino, então me pus ao seu lado e o abracei tentando entender o que havia deixado meu pobre amigo daquele jeito, tentei conforta-lo, reanima-lo, pois eu amava aquele individuo como um irmão, em fim.
   O sol já havia desaparecido completamente e a noite já havia caído, aquela altura a lua cheia já exibia toda sua majestosa beleza no céu, então uma rajada de vento estranha e misteriosa fez com que todas aquelas arvores dançarem e estremecerem desesperadamente, meu coração acelerou muito rápido, abracei ainda mais forte o pobre Keibow que já teria fugido se eu não o apertasse tanto em meus braços.
   Acho que por sorte meu pai havia notado a minha ausência em nossa pequena casinha, ele sempre me dizia para ficar longe daquela floresta,  e devido aquela rajada de vento que lhe chamou a atenção ele deve ter deduzido certeiramente que era lá que eu estava.
   A lua brilhava alto exposta no céu e a noite já havia caído totalmente e então eu ouvi, o som de dezenas de corvos surgindo da floresta e voarem por cima de mim, fazendo aquele barulho característico que só aqueles pássaros negros conseguem reproduzir. O susto foi tão grande que eu literalmente gelei ali no local, o medo e o susto haviam me paralisado, parecia que o sangue em minhas veias havia parado de correr com tanto medo, e eu não conseguia criar coragem para me movimentar.
   Keibow assustado se debatia em meus braços querendo fugir, pressentindo o perigo que se aproximava, enquanto eu o aprisionava meus braços congelados pelo medo, então houve um curto momento de silencio que predominou por menos de segundos, foi aí que eu ouvi aquele som que todos daquela região temiam, o som estremeceu por todo o lugar, o som que toda criatura da terra temia, que penetrava na alma e amedrontava todos que conheciam a sua origem, era o uivo estridente de um lobo, ou melhor, um lobisomem carnívoro sedento por carne.
   Fiquei ainda mais apavorado, meus cabelos se arrepiaram de medo, e Keibow havia conseguido se libertar de meus braços fugindo m direção a nossa casa, fugindo da criatura que  se aproximava pela floresta, a mesma coisa que havia assustado aqueles corvos, que uivava para a lua cheia e se aproximava de mim.
   Em um momento eu ouvi a voz de meu pai me mandando correr dali, foi exatamente o que eu fiz , seguindo o mesmo caminho que Keibow havia feito para fugir, enquanto meu pai armado com sua carabina alemã corria em minha direção, e então ele olha para mim com aquela expressão de horror desespero cravada em seu rosto, de repente ele gritou para mim:
   - “corre!!!”
Houve uma pausa para pegar folego e novamente ele gritou:
   -cuidado!!!-
   Foi então que enquanto eu corria ligeira e apressadamente dei uma leve olhada para trás sem diminuir a minha velocidade, e pude notar que enquanto eu corria desesperado, que uma criatura com dentes enormes e uma pelugem cinza e olhos cintilantes amarelados me seguia quase me alcançando, por diferença de menos de vinte metros, era um lobisomem magro sedento de fome perseguindo-me ferozmente louco para me devorar.
   Eu pressentia que seria pego, meu pai também havia percebido que eu seria alcançado sem chance de escapar, a criatura corria muito mais rápido que eu, e então eu ouvi o estrondo do disparo da arma de meu pai, senti o projétil voar a centímetros de meu ouvido e se encontrar com a criatura atrás de mim, só ouvi o barulho de algo atrás de eu cair pesadamente no chão.
   Por um momento senti que aquele disparo havia sido a minha salvação, com o susto do tiro e também com a sensação de alivio, me soltei ao chão exausto e sem folego, recuperando o oxigênio que faltava em meus pulmões.
   E então nesse curto momento de paz, a criatura caída voltou a se mexer, logo já estava de pé sobre duas patas e saltando em minha direção, meu pai ainda recarregava sua arma apressadamente desesperado, e eu era erguido pela criatura que me segurava com suas garras e me atacando o ombro com uma mordida violenta agonizante, a única reação diante da situação que eu me encontrava naquele momento de desespero era gritar com todo o ar de meus pulmões agonizando enquanto eu sentia os dentes daquela criatura cravando em meu ombro.
   Parecia que aquele era o meu fim, a dor era muito forte , só me restava agonizar e aceitar a morte enquanto aquela criatura me devorava , foi então que Kaibow surgiu por trás dela cravando seus dentes exatamente no pescoço vulnerável da criatura, ficando presa ali mesmo, a criatura soltou um rugido horrendo e estridente de dor, me largando no chão quase morto e se contorcendo para tirar keibow de suas costas.
   Eu já estava cansado e exausto demais, fraco e abatido não conseguia forças para fugir dali, sentindo a morte se aproximando de mim, a sensação que dá na pele quando sente o frio gélido da morte, a sensibilidade em perceber as coisas em sua volta, os olhos conseguiam acompanhar uma cena de milésimos em segundos, o tempo parecia correr mais devagar, e a morte se aproximava cada vez mais, eu só pude olhar para a lua cheia radiante alta no céu, vislumbrando sua beleza, enquanto ao mesmo tempo a criatura conseguia arrancar Keibow de suas costas segurando-o pela cabeça e abrindo sua mandíbula ao extremo rasgando-o pobre coitado ao meio e largando seu corpo próximo a mim, foi um horror ver a cena do meu único e fiel amigo morrer brutalmente daquela forma, pobre coitado que havia se sacrificado para me salvar, as imagens continuam bem vivas em minha mente até hoje.
   Meu pai que já havia recarregado a arma, agora avançava contra a criatura para tentar me ajudar, mas antes que ele pudesse chegar mais perto, a criatura saltou em um impulso vindo cair sobre meu pai que disparou o tiro acidentalmente para o ar, o tiro não seria o bastante para salva-lo agora pois a criatura já estava caída sobre ele devorando ferozmente e faminta, deliciando-se da carne de meu pai que não podia mais reagir, não podia mais se salvar.
   Eu ainda ferido, apreciava com jubilo a linda e radiante lua cheia, a morte demorava a me encontrar, o tempo passava lentamente e dentro do meu corpo eu sentia uma reação diferente de tudo que já sentira antes, talvez fosse essa a sensação que sentimos quando estamos morrendo, mas eu estava enganado, eu senti meus batimentos cardíacos acelerarem muito rapidamente, senti o sangue ferver em minhas veias, minha pele ganhava uma pelugem branca exótica e meus ossos estalavam sofrendo uma mutação dolorosa, quase insuportável, meu corpo começava a ganhar volume apressadamente, logo eu já estava tão grande quando aquela criatura que devorava meu pai, em fim. Eu havia me transformado em um lobo, o que era estranho, pois sempre achei que quem fosse mordido por uma fera dessas se tornava uma fera como ela, um lobisomens, meio humano meio lobo, mas com o instinto assassino carniceiro devastador, além de ser irracional.
   Eu notei logo que era diferente, eu havia ganhado mais tamanho e mais força, e a forma completa de um lobo com pelugem branca, dentes afiadíssimos como facas, e um leve instinto trucido que eu podia controlar, eu podia racionar, pensar, refletir e ter consciência de meus atos. Eu não era como aquela criatura bestial que devorava meu pai sem a concepção do que estava fazendo, vendo aquela cena horrenda eu rosnei furiosamente um som que jamais ouvira antes, tão estridente que e apavorante que deixou aquela criatura alerta de minha presença, ela se virou para trás e se deparou comigo, logo já estava encolhido ali no chão, soltando aqueles gemidos melancólicos de choro como um cachorro amedrontado.
   Mas o meu rugido estridente e furioso ecoou mais alto, e não tive o mínimo remorso quando ataquei aquela criatura com toda a minha exaltação, pus minha pata sobre sua cabeça imobilizando sua mandíbula para ela não me morder, enquanto com a outra eu pousava sobe seu peito e abocanhava com ódio a sua perna, enquanto abocanhava ele agonizava até a morte, então sem dificuldades eu consegui facilmente arrancar-lhe a perna desmembrando-a do seu corpo, triturei-a com apenas três mordidas dentro de minha boca antes de engolir.
   A essa altura seu corpo já estava sem vida, sua morte estava trazendo sua verdadeira forma, a forma humana, e aos poucos ele perdia sua forma monstruosa, logo ela já tomava a forma totalmente humana, e pude notar através de seu corpo nu que aquela monstruosidade que havia me atacado e tirado a vida de meu pai e de keibow, se tratava de uma mulher, mesmo toda encharcada com aquele sangue eu pude notar o quanto ela era jovem e bonita, então eu tirei minha pata de sua cabeça e pude ver o seu rosto.
   Maldita seja a ironia do destino, a surpresa funesta que tive quando tirei minha pata e vi o seu rosto, vi que aquela jovem moça que eu havia acabado de tirar a vida era a minha própria mãe, fiquei horrorizado e indescritivelmente abalado.
   Desde então não fui mais o mesmo, fugi para as montanhas e vivi em cavernas, alimentando-me de outros animais, sempre com as lembranças atormentadoras do massacre da minha família, a minha vida estava amaldiçoada, uma maldição que eu levaria até o ultimo dia de minha vida, maldita seja a ironia do destino.

2 de janeiro de 2013

(parte3) - O cavaleiro Negro decide fugir do inferno


O cavaleiro Negro decide fugir do inferno

   Em um dos abismos sem fim do inferno, com horizontes avermelhados, fora dos muros que cercavam o castelo do ser maligno, montado em seu cavalo negro, contemplando a paisagem e o clima pesado do local. A sua volta, almas vivas sendo torturadas e jogadas no abismo, alguns pediam sua ajuda, os gritos e lamentos dos condenados ecoavam em sua cabeça, ele apenas observava os pobres infames pagando seus pecados no inferno.
   Sua cabeça estava em outro lugar, algo forte o dominava, ele fecha os olhos, relembra mais uma vez a cena da voz da filha de seu mestre entrando em sua cabeça:
    “Oque você fez?” ele lembra o rosto dela, pálido meio cinza, límpido, olhos branquíssimos com um pequeno pontinho preto cercado por uma mancha negra (maquiagem talvez) que lhe dava um toque vaidoso, era uma jovem sedutora com um belo vestido sombrio e cabelos negros.
   “Ele quer ser livre, Não o mande pro inferno”  foram as palavras seguintes.
   Seus pensamentos agora se voltavam para si próprio, da ultima missão que havia cumprido, era simplesmente a de capturar Cérbero o cãozinho de estimação do ser a que ele servia. Pela primeira vez em sua existência sentiu um leve remorso, sentiu pena em ter levado a pobre criatura de volta ao inferno. “o que está acontecendo comigo?“ pensou consigo mesmo, -“esse não sou eu, eu não tenho sentimentos, não pode ser”.
   Seu cavalo lançava chamas pelos olhos e ventas como que alertando seu montador de perigo próximo, ele olha para o lado e nota há menos de cem metros, Cérbero que ele havia mandado para esse inferno, estava inquieto, agitado sendo chicoteado por demônios que tentavam dominar a fúria da criatura de três cabeças.
   Os demônios que tentavam domina-lo eram apenas simples bestas operárias, tinham a forma humana, mas com algumas diferenças, todos iguais com chifres pontudos e rabo com uma forma triangular na ponta, eram a forma semelhante do seu criador, estavam punindo Cérbero, com aquelas chicoteadas bárbaras.
   “Eu sou como ele” pensava consigo, imaginava-se como um escravo do inferno, sabia que seus pensamentos eram limitados por que na sua criação, seu mestre havia tirado todos os seus pontos fracos, inclusive o livre arbítrio de pensar abertamente.
   ”Quem eu sou e o que estou fazendo aqui?” leva às mãos a cabeça e segura o capacete, tira-o na tentativa de aliviar a pressão que sofre enquanto pensava, agora estava em uma batalha mental contra os próprios limites da mente.
   Seu rosto expõe uma face humana normal, a pele cinza de um demônio, mas as características de um humano, sua boca com lábios cerrados, e uma barba curta misturada aos seus longos fios de cabelo negros. Seu olhar é o mesmo por trás da mascara, olhos vermelhos vivos e sorvidos no rosto.
   Agora nota-se melhor a robustez pesada em seu corpo, Não é atoa que ele é o demônio inferior mais querido do soberaníssimo ser maligno, era um homem praticamente comum, mas um corpo esbelto e forte, atlético com músculos rigorosos.
   Ele era quase que totalmente semelhante à criação de Deus, um humano quase perfeito, exceto pela cor acinzentada da pele e o rosto fechado congelado em uma expressão de indiferença, como que focado em um objetivo e centralizado nele, e era exatamente isso que lhe corria os pensamentos. Ele olha a mascara que lhe cobria o rosto, era uma mascara de metal com a forma de um demônio raivoso modelado nela, Joga-a no abismo.
   Como que por resultado, desta ação, algumas lembranças voltam a sua cabeça, como um raio, as imagens dele humano ainda mortal em seu fiel cavalo lutando contra um demônio semelhante aos que agora o rodeia.
   Deu certo, ele estava se libertando da prisão mental que seu mestre havia-o prendido, aos poucos ele restaurava pequenas lembranças de quando ainda era um simples mortal. Ele volta a por as mãos na cabeça, segurando , concentrando-se ao máximo, ”Quem sou eu” questionava-se o tempo todo, ainda estava sobre o poder da limitação dos pensamentos de seu mestre.
   Pela primeira vez ele abre a boca, e solta um grito,
   -Aaaaaahhhhhhhhhhhhhg!!! –
   Sua voz gutural pesada assusta os outros demônios que faziam suas tarefas rotineiras, Cérbero também se assusta e cessa com a inquietação, deixando-se ser dominado pelos demônios que o chicoteavam sem parar.
   -Eu tenho que fugir daqui - disse para seu cavalo, este entendendo a mensagem de seu montador, bate o casco da pata dianteira no chão com força, logo um portal se abre a sua frente, dele sai um vento frio junto com algumas folhas secas, seu cavalo pega distancia do portal, em seguida corre em disparada rumo a ele, atravessando-o, ressurgindo ao mesmo tempo em um vilarejo em frente a uma igreja  no meio da madrugada, as ruas desertas e calmas, todos os habitantes jaziam dormindo profundamente .
   Seu cavalo relincha alto, as chamas amarelas que saiam de suas ventas agora tinham uma cor cianótica, estava apreciando respirar um pouco de ar, sentir-se vivo. Logo ele nota a presença de alguém atrás dele, imediatamente ele saca sua espada de laminas negras afiadíssimas, e sem nem ao menos voltar se para o individuo, pousa a sua espada pesada sobre o ombro de um homem.
   -calma, calma, eu não venho fazer mal algum, -
   Volta-se para trás e vê que era Canny, Um demônio que tem a habilidade de transformar-se em um lobo dez vezes maior do que um lobo comum, este levanta os braços para demostrar que estava desarmado e sem chance de contrapor.
 -eu ouvi quando você falou que tinha que fugir de lá, então eu resolvi acompanha-lo.
   Canny vestia uma roupa esfarrapada, verdadeiros trapos de roupa, com um tecido maltratado e sujo, com uma coleira um pouco solta com espinhos metálicos internos, isso servia para impedi-lo que se transformasse em lobo.
   Longos cabelos loiros e olhos negros cintilantes, uma pequena barbicha em seu queixo denunciava o quanto era jovem, sua pele branca, mas um tanto avermelhada devido ao ambiente calorento onde esteve por toda a eternidade. Enquanto falava sua boca deixava expor seus caninos pontudos e alongados,
   O Cavaleiro Negro permanecia com a espada no ombro de canny apenas o observando e ouvindo-o.
   - espero que não se incomode por eu ter me aproveitado da carona, eu precisava fugir de lá também-.
    Ele faz uma pausa esperando uma palavra em resposta, mas o cavaleiro negro continua calado com a espada em punho pousada sobre seu ombro.
      - eu esqueci que você não fala muito –
      Ele ri esperando fazê-lo rir também, mas a frieza no rosto do cavaleiro continua inalterável,
   - bem, não sei quanto a você, mas eu vou embora daqui, pois quando Ele notar a nossa ausência vai mandar aqueles demônios caçadores para nos procurar e aí meu amigo estaremos encrencados-.
   Ele tenta caminhar, mas após dar o primeiro passo, o cavaleiro negro encosta a ponta de sua espada na garganta de Canny, este fica alarmado e temendo fazer mais um movimento que possa resultar na sua morte, resolve ficar ali mesmo.
 - Tudo bem então amigo, eu fico pra tomar café com você –.
  Ele fala em tom irônico, queria evitar a qualquer custo uma luta com o cavaleiro negro, pois ele sabia que mesmo com todo o seu poder em forma de lobo, não era desafio algum para ele,
   De repente o cavalo fica agitado batendo os cascos no chão, e soltando as labaredas de fogo pelas ventas e olhos.
   -O que deu nele? –
   Sem obter uma resposta, ele continua imóvel, pressentindo que algo extremamente ruim estava prestes a acontecer.
   Nessa mesma hora, uma curta abertura de um portal se abre a frente deles, dele sai um demônio com chifres contorcidos e quatro braços musculosos, mas antes que ele pudesse atravessar totalmente o portal o cavalo bate com os cascos de forma mais agressiva no chão, ativando o seu poder, fazendo o portal fechar-se, e cortando um dos braços da abominação que o atravessava.
   - é um Caçador, isso significa que ele já sabe que fugimos - disse Canny receando o que estava prestes a acontecer.
   Tendo consciência do que estava prestes a enfrentar, o cavaleiro negro se desmonta de seu cavalo e investe com a espada contra ele, tenta desferir um golpe com a espada, mas o caçador se defende com um dos braços que ainda lhe restava segurando o braço do cavaleiro, com outro braço ele desfere socos em seu rosto deixando-o cair no chão desnorteado, sua espada cai um pouco distante.
   Logo ele é pisoteado pelo caçador que grunhia raivosamente.
- Ele quer você de volta no inferno-  a voz era misturada a um grunhido aterrorizante.
   O cavaleiro negro mantem a postura fria e fechada diante das palavras de seu oponente, vê-se em uma situação difícil e apela pela ajuda de sua montaria, Que avança contra o caçador e o afasta do cavaleiro deixando-o livre para voltar ao combate.
   Canny apenas observava atentamente quando avistou a espada do cavaleiro jogada aos seus pés, sabendo do poder daquelas laminas ele pega a espada e com cuidado passa as laminas sobre sua coleira, cortando-a facilmente, em seguida ele volta a observar a luta do cavaleiro e o demônio caçador, ambos estavam de frente um para o outro analisando qual movimento executar para tentar abater o oponente, novamente como de costume o cavalo morto vivo havia tomado o cuidado de manter uma distancia segura daquelas duas criaturas.
   O Caçador corre em direção ao cavaleiro, os dois se chocam violentamente, mas o cavaleiro em desvantagem, o caçador estava sobre segurado seus dois braços no chão, e com o braço sobrando, desferindo mais socos no cavaleiro, este usa toda a força que ainda restava para com as pernas, dar-lhe uma joelhada por trás, invertendo a posição de luta, agora o caçador estava no chão e o cavaleiro de pé ao seu lado, ele segura o demônio pelo chifre e o põe de pé, em seguida fecha o punho e desfere um soco em seu rosto arremessando-o na porta da igreja.    
   Logo ele consegue recuperar as energias e se põe de pé e salta em direção ao cavaleiro vindo cair atrás dele, o cavaleiro tenta acertar outro soco no caçador, mas ele se abaixa , agarrando a capa esvoaçante do cavaleiro e puxando ela, assim derrubando-o no chão.
   Novamente ao chão, o Cavaleiro em desvantagem é surpreendido pela ajuda de um enorme lobo de pelos brancos que avança contra o Caçador, mas ele consegue segura-lo e joga-lo ao chão, aproveitando esse pequeno descuido do Caçador, o Cavaleiro negro encolhe uma das penas, mira na articulação do joelho do demônio e chuta com a sola do seu pé aquela região, vindo a ouvir um estalo alto, ele acabara de quebrar a pena do seu oponente, agora o Caçador estava limitado naquela luta, grunhindo mais alto ainda, contorcendo de dor, enquanto o Cavaleiro negro se colocava de pé e apanhava sua espada.
   O lobo caído ao lado do Caçador retornava a forma humana de Canny, que recobra a consciência e vê o Cavaleiro negro aproximar-se do Caçador, em seguida deferindo mais um golpe com a espada, ele fecha os olhos para não ver a cena horrenda que se prosseguia, ouve o som de algo cair pesadamente no chão, ele abre os olhos e vê perto de si, a cabeça decepada do demônio caçador com a expressão de ódio e ao mesmo tempo horror em sua face.
   - Obrigado - diz o cavaleiro com sua voz estridente enquanto recolocava sua espada na bainha, em seguida erguendo o braço para ajudar Canny a se levantar.
   - Minha nossa! Você fala! – surpreso com o que ouviu, ele segura a mão do cavaleiro e põe-se de pé, em seguida limpa a poeira do seu corpo.
   -Melhor irmos andando, pois mais enviados Dele virão atrás de nós-.
Nessa hora o corcel aproximava deles, mordendo e beliscando a capa de seu montador, queria seguir jornada, continuar em frente.
   - se quiser aceitar a minha companhia é claro-
   O cavaleiro apenas o observa,
   -venha comigo se quiser-
   Ele monta no seu cavalo...
   - Ou se conseguir nos acompanhar - diz puxando as rédeas do cavalo saindo em disparada rumo ao oeste, Canny sorri satisfeito com a nova amizade, e se transforma em lobo, em sequencia, corre em disparada seguindo o Cavaleiro Negro, junto rumo ao oeste sem destino certo.
   Enquanto corria em sua montaria, o cavaleiro relembrava mais uma vez do rosto da sedutora filha daquele que o comandava antes,
   “foi ela que libertou os meus pensamentos” concluiu consigo mesmo, fora do inferno o seu aquele ser maligno não era tão poderoso, assim o cavaleiro negro poderia pensar livremente, mas com as lembranças ainda ocultas no fundo de sua mente, estava determinado a descobrir a sua própria origem, explorar o seu passado para quem sabe assim, poder descobrir como chegara a se tornar um escravo de Lúcifer.
   Ao norte ele avistava a montanha que aparecia em suas lembranças, era lá o primeiro lugar que deveria explorar para recordar o seu passado, estava consciente de que outras criaturas maléficas iriam aparecer em nome do ser que o escravizava, mas com a ajuda de Canny, seu corcel e sua espada ele estaria pronto para os próximos desafios.

                     

24 de dezembro de 2012

A trilha maldita - por Salomon


Carona Espectral- por Salomon



   Ha alguns quilômetros de onde eu moro, existe uma trilha, um caminho estreito e nivelado cercado por árvores altas e galhos secos que tomava as mais variadas estranhas e formas. Uma mata densa e fechada cercava a trilha. Essa trilha era usada como atalho por muitas pessoas que queriam evitar as estradas longas e transitadas, inclusive foi nessa trilha que há cerca de cinco anos atrás uma jovem havia perdido a vida enquanto pilotava sua motocicleta, devia estar muito apressada, pois pilotava muito rápido dentro da trilha, e em um exato trecho havia uma pedra que se estendia de um lado para o outro assim formando um quebra-molas natural, logo após essa pedra havia uma curva fechada.
   O acidente poderia ter sido evitado se essa moça não estivesse correndo tanto. Ela acabou perdendo o controle da moto e passando com tudo por cima da pedra, acabou batendo a cabeça e morrendo, um acidente grave e fatal.
   Como ainda hoje ainda é de costume devido às culturas da região, construíram uma cruz de madeira com seu nome, data de nascimento e óbito, ali mesmo ao lado da trilha bem onde ela morreu onde se faz a curva.
Antes de expor o que aconteceu comigo é necessário que meus caros leitores submergissem essas pequenas informações antes de prosseguir com o meu relato.
   Vou tentar ser o mais claro possível. Era uma noite típica de verão, eu voltava de uma festa na cidade vizinha, rumava para casa em minha motocicleta, já se passava da meia noite e eu estava apressado para chegar logo em casa, então decidi pegar justamente essa trilha para adiantar logo minha chegada em casa.
Pilotava então em meio as arvores altas, o silencio quebrado apenas pelo barulho do motor da minha moto, os galhos que tomavam formas assustadoras e o atalho parecia não ter fim, mas até aí tudo bem. Mas há poucos metros mais afrente o farol da minha moto focou justamente na pedra onde há alguns anos atrás havia acontecido um acidente fatal.
    Logo depois o farol iluminou a cruz que seus familiares construíram para ela, aquilo me deixou aflito, eu consegui ler o nome e observar bem as datas cravadas na madeira daquele objeto medonho, fiquei atormentado, comecei a imaginar coisas, fiquei com medo, talvez devido às poucas (pouquíssimas) doses de álcool que eu havia tomado na festa me deixava com os nervos à flor da pele.
   Aproximava-me rápido da pedra, era hora de passar o pneu dianteiro por ela, reduzi a velocidade, o amortecedor agiu normalmente, então era hora de passar o pneu detrás, logo em seguida senti um forte impacto no amortecedor da roda, como se a moto tivesse mais pesada, como se alguém tivesse subido na garupa da moto e pego carona comigo.
   Meu coração acelerou bruscamente, gotas de suor desciam pela minha testa, e minhas costas curvavam para frente, os pelos do meu corpo ficaram eriçados, eu estava quase sentado no tanque de combustível, pois tinha medo de me estender um pouco para trás e me encostar com algum corpo na garupa, levando em consideração que eu não levava ninguém comigo.





















Pilotei em velocidade reduzida até avistar longe no fim da trilha as luzes da minha cidade destino, então acelerei ainda sentindo aquela força estranha na grupa da moto, que só sumiu quando cheguei ao final da trilha.
    A lembrança dessa experiência arrepiante eu levo comigo até hoje, mas mesmo assim nunca deixei de usar aquela trilha como atalho, mas agora tomo algumas providencias antes de passar por ela, sempre que vou passar sozinho por ela, me estico ao máximo ao longo do veiculo até ocupar totalmente a garupa da moto.
   Mais pessoas passaram por esse fenômeno arrepiante e sentiram as mesmas sensações que eu, o boato que circula por aí é que a assombração da moça que nunca conseguiu chegar em casa, pega carona clandestinamente com qualquer individuo que passa por lá, assim matando de medo os infelizes que encaram na pele o temor que essa assombração nos causa.



25 de novembro de 2012

Um Conto Romantico e Mediocre – por Salomon


        Esse conto foi a minha maior bizarrice. Sem inspiração e com caderno e caneta preparados, procurava alguma inspiração poética, calma, sombria, eu me dirigi ao cemitério durante a noite para escrever,  na companhia de mais alguns amigos, no entanto só depois de contemplarmos a noite de cima do jazigo mais alto me surgiu essa ideia,



Amor de  john Bladley – por Salomon

                        O amor é forte como a morte. ! Salomão - (da Bíblia, Velho Testamento)
   Eu sempre fui grato ao senhor que me adotou como seu legitimo filho, aos quatro anos, o riquíssimo senhor John Bradley, da família Bradley de Maryland, ele me adotou pouco após a morte de sua esposa, lady Rose Bladley minha falecida mãe adotiva, Quinze anos haviam se passado desde então.
   Até aquele dia, meu pai havia sumido fazia setenta e duas horas, e nem eu e nem os criados da família, conseguíamos ter uma noção de onde ele poderia estar, pensei que poderia ter saído para cassar e logo se perdido, mas ele não saia de quase nunca, eu estava preocupado, eu amava meu pai, ele que sempre foi um homem respeitado bem querido pelos criados e habitantes de Baltimore, tanto que todos haviam se comovido com seu desaparecimento misterioso, com carinho chamo de pai e eu mais do que ninguém temia o que poderia ter acontecido, devido ele me dar uma nova vida, eu sou grato vivamente a ele que, por tudo o que eu sou agora. Após a terceira noite de seu desaparecimento, eu estava vasculhando seu gabinete onde ele escrevia seus poemas, poesias e artigos para jornais, cada centímetro era cuidadosamente vasculhado, e quase nada além de poemas e textos eu consegui encontrar nos arquivos, decidi vasculhar a gaveta, vários poemas dedicados a uma única pessoa, Lady Rose Bradley, sempre com o mesmo nome citado em todas as dedicatórias, “A MINHA AMADA LADY ROSE BLADLEY”. Quase desistindo, eu encontrei em meio às cartas de amor, um envelope lacrado com meu nome, a letra era de meu pai, também reconheci o selo da família com um enorme B destacado, e nela uma carta com frente e verso com os seguintes escritos;

     Querido e amado filho
   Se encontrar esta carta então eu devo estar ausente de certa forma já está desesperado a minha procura, para violar meu espaço me gabinete e principalmente minhas gavetas.
   Não se preocupe mais meu filho, acalme-se eu sumi realmente, mas não é motivo de desespero. Eu acredito ter feito o melhor possível para educa-lo, e fazer-lhe feliz com uma vida decente, assim como sua falecida mãe cuja nunca pode conhecer, gostaria que fosse.
   Agora tenho que relatar os fatos que me levaram a essa ausência, preste bem atenção nos fatos que vou detalhar, pois é tão importante para o seu futuro quando para o de nossas ricas propriedades, servos e o nome de nossa família, começo que quando casei-me com sua mãe e prometi-lhe todo meu amor eterno, desde nossa infância juntos sempre fomos apaixonados fiel e inocentemente, estávamos destinados mesmo a nos amar profundamente,  como eu já lhe falei em outra ocasião, sua mãe era dona de uma beleza angelical, e tinha um sonho,  ela sempre sonhava em ter um filho, mas minha amada Rose sofria de uma rara doença pouco estudada até hoje, ela tinha a saúde muito instável, era super sensível, convulsões e febres tomavam conta de seu corpo, mas sua saúde havia piorado naquele ultimo outono, o medico vinha visitar-nos frequentemente para averiguar sua saúde, mas nada era certo além da morte que aos poucos tomava conta de sua vida.
   No primeiro dia do inverno sua mãe havia entrado em convulsão violenta, ela estava morrendo ali, nos meus braços o doutor nada pode fazer além de amenizar sua dor, com remédios fortemente concentrados para acalma-la. Ela morreu ali mesmo, em meus braços, seu corpo foi sepultado em um jazigo, o mais atraente do cemitério, uma obra de arte arquitetônica cuja gastei uma pequena fortuna pela estatua de um anjo com asas abertas e mãos juntas como se orasse pela alma que um dia habitou aquele corpo que descansava eternamente ali.
   Tristes noites frias de inverno me perseguiam desde então, durante as duas primeiras semanas, a melancolia havia tomado conta do meu ser, eu não me deitei mais em nossa cama, ficava em claro, sentado em minha cadeira de balanço no canto do quarto vendo a cama onde ela deu seus últimos suspiros, os servos em vão tentavam me animar com banquetes e passeios de charrete, nada adiantava.
   Somente após versos, poesias, poemas dedicados sempre a minha amada, lembrei que ela sempre desejava ter um filho, então lhe adotei. Foi a melhor coisa que eu fiz. Eu havia escolhido o herdeiro da nossa família, dediquei-lhe toda educação, matriculei-o nas melhores escolas e universidades, sempre me orgulhava quando em sua infância mostrava-me as suas boas notas e elogios de professores. De certa forma você devolveu a alegria de volta a nossa família, mas nada fazia o enorme dor da saudade ir embora,
   Nos últimos dias filho, tive visões com sua mãe, às alucinações eram fortes, certa vez tive a impressão de que ela estava ao meu lado parecia muito triste, mais triste do que eu, então lembrei que eu havia prometido, lembras quando te mencionei que nada nem mesmo a morte eu permitiria que interferisse em meu amor? Quanto à antiga questão: Quando morre quem amamos, morre também o amor? Meu amor é tão verdadeiro e puro quanto a minha própria existência, minha vida, quanto à eternidade.
   Filho sua mãe estaria orgulhosa de ti se soubesse como você cresceu, lembre-te filho, eu te amo, e cabe a você agora cuidar de nossas riquezas terras propriedades e servos.                    

                                                                     Atenciosamente: John Bladley

                                            

   Após ler esta carta, chamei os criados, mandei que me acompanhassem, eu sabia exatamente onde estava meu pai, fui diretamente até o cemitério, de longe dava para avistar o jazigo de Lady Rose, pedi que arrombasse o cadeado, removemos a gaveta com facilidade, ela estava apenas encostada, sinal que havia sido removida, adentramos e contemplamos seu interior e o enorme baú no centro de um estabulo de concreto, sua tampa estava também apenas encostada, o cheiro de umidade e morte, entravam em minhas narinas causando-me zonzeira e ânsia de vomito, pedi para que removessem a tampa do enorme baú.quase desmaiei, diante da insanidade obsessiva do amor de meu pai por sua amada , O terror insano e aturdido tomou conta de meu ser, ao contemplar ali deitado já sem vida ao lado do que restava dos restos mortais de minha mãe adotiva, meu pai, que continha um certo sorriso demente e insano em seus lábios, um sorriso de amor , de quem só queria viver eternamente ao lado de quem mais ama em toda eternidade.


                                                                         
                                                                             †††

22 de novembro de 2012

( parte 2) - O Cavaleiro Negro Contra Cérbero – Por Salomon


O Cavaleiro Negro (Black Knight) Contra Cérbero – Por Salomon

   Sensação calorenta e quente a beira do maior abismo do mundo oculto chamado de inferno, vislumbrando a imensidão do abismo onde almas a sua volta são jogadas a todo o momento friamente por demônios no buraco que parece não ter fim, estava o Cavaleiro Negro montado em seu corcel negro seu cavalo batizado pelo próprio demônio, este também se encantava com tamanha vastidão dentro do abismo na parte mais alta daquele lugar tão aterrorizante.
   Lugares exóticos, paisagens, vistas deslumbrantes e colossais são as paixões do cavaleiro Negro, elas despertavam algo nele que não era fácil de compreender, ficar assim tão perto de um abismo, sendo que um palmo a frente poderia estar a sua condenação, um simples mortal encontrar-se-ia mais cedo com a desgraça ou a morte se ainda estivesse vivo, se desse um passo a frente.
Enquanto vislumbrava, lembrava-se de sua vida ainda como mortal, com seu cavalo encontraram um abismo semelhante a este, talvez por isso, talvez por fazê-lo lembrar de quem era antes do pacto, esses lugares o encantavam tanto. Era realmente isso, suas lembranças ainda estavam perdidas, sua cabeça ainda agora é poço profundo de imagens e vozes, lembranças de quem era antes, perdida, que aos poucos estava recuperando.
   Sua armadura de cor negra tomava a cor de vermelho encarnado, efeito causado pelo fogo que existia em toda sua volta, a mascara que esconde seu rosto ardia quase querendo derreter ao calor do lugar, mas nada disso o incomodava, não sentia calor, dor, remorso, nem sensação semelhante, pontos fracos que seu mestre arrancou-lhe para não o desviar de suas incumbências.
Seu corcel fumegava chamas pelas ventas e labaredas de fogo surgiam de seus olhos, era o sinal que seu mestre o invocava, necessitava de seus esforços na terra dos mortais, uma superfície plana e circular queimando rapidamente em labaredas de fogo vermelho surge há 20 metros da beira do abismo afrente do cavaleiro negro, era um portal que o levaria direto ao seu mestre.
   Ele puxa as rédeas de seu corcel para tomar distancia, logo, este começa a correr como uma fera selvagem correndo atrás de uma presa que percorrem distancias desvairadamente para fugir da morte certa, eles saltam dentro do abismo, e no impulso de sua montaria quase chegam a voar até o portal, as duas figuras desaparecem no ar, junto com a passagem que adentraram.
   Do outro lado do portal, havia barulho, o cavaleiro surge com sua fiel montaria, causando uma quebra de agitação do ambiente, onde gritos de dor e agonia junto com chicotadas e barulho de laminas incisando almas era a única sonoridade do lugar agora se fazia silencio, para a passagem do cavaleiro que era servo fiel do próprio demônio que dominava todo o recinto, e por isso era respeitado pelas outras criaturas malignas e diabólicas do lugar.
   Ele desce de seu corcel, o lugar agora é oque parece ser um palácio gigante com pilastras que subiam infinitamente até encontrar um teto que parecia não existir, esse é o castelo, onde o próprio demônio expulso e condenado do Paraíso encontrava suas mordomias junto com mais demônios e alguns seres malignos. Seu corcel fica parado, deixa-o ali mesmo, ao lado de onde estava o portal de onde vieram que já havia desaparecido após sua entrada. Os portais que se se abriam dando passagens a mundos diferentes era uma habilidade que só os descendentes do próprio demônio mestre supremo, poderiam produzir. Somente o corcel negro era uma exceção, ele poderia abrir e fechar uma passagem dimensional do mundo oculto para o mundo dos humanos, uma habilidade adicional que foi concedida no dia do pacto do cavaleiro negro.
   Ele caminha mais alguns metros até chegar perto do trono, e se curva como um ato de fidelidade e mostrar veneração, com o rosto em direção ao chão. De forma alguma ele ou qualquer outra criatura ali ousava olhar diretamente para quem residia naquele trono, optava então por olhar sempre para o chão, ele já sabia quem estava a sua frente, eram três tronos, com á distancia de alguns poucos metros um do outro, de forma que dava para o cavaleiro olhar para um dos lados e ver quem sentava a direita de seu mestre, em um trono não menos importante, uma mulher de olhos branquíssimos, trajando um vestido negro, com seus cabelos emaranhados caindo para frente, era a filha dele, notou que esta o encarava de volta, volta seu olhar para o chão, aguardando as camadas de seu mestre.
   Uma voz bruta e rouca com um gutural funesto e arrepiador quebrou o silencio do lugar:
- vá para o mundo dos mortais, meu guardião está perdido no abismo da Geórgia, abrirei o portal que o levará-.
 Sempre que tinha uma ordem para cumprir em algum lugar ou dimensão, se não resolvesse ele mesmo, seu mestre o mandava, direto para o lugar próximo de concluir a tarefa, era sempre preferível o cavaleiro negro por que nunca falhara nem fracassara aos comandados de seu mestre.
  -alguém o deixou escapar, essa criança tola não fechou os portões após sua visita aquele mundo devastado pelos humanos, minha pequena e irresponsável filha. Agora vá, mas lembre-se de que ele é um de meus guardiões não terá serventia se me trouxer morto.
Esse guardião é Cérbero, um cão monstruoso e gigante com três cabeças sempre faminto que era responsável por cuidar do lado de fora do castelo no inferno, como era um ser ignorante e irracional que atacaria até seu mestre, ou até mesmo seu criador, era deixado do lado de fora dos portões do castelo que era cercado por muros como uma fortaleza.
    O cavaleiro negro apenas ouvia, não podia responder, não havia boca literalmente em sua face, era limitado por causa de sua deformidade macabra detrás daquela mascara escura que só deixavam exibir seus olhos vermelhos.
-já tens os meus comandos, agora vá... Lembre-se que eu o quero vivo-.
Tendo recebido e entendido sua nova tarefa, o cavaleiro negro levanta-se, revela-se um corpo malhado, alto e forte, protegido por uma armadura negra de um material questionável até por ele mesmo. Inquebrável, nenhuma lamina, peso, ataque ou poder era suficiente para acabar com a proteção que ela oferecia, de tão resistente.
   Enquanto caminhava em direção ao seu corcel que estava agitado, como se ansioso pela nova missão, sua capa esvoaçava como se criasse vida, deixando amostra a bainha que fica do lado direito presa a perna da armadura, onde sua espada negra pousava, suas laminas também negras eram destacadas pelo cume de cor vermelha, cujo fora feita para cortar até o mais duro e resistente corpo existente, cortaria uma escultura de metal maciça com uma facilidade surpreendente para os humanos, feito com o mesmo material desconhecido que fora arranjada a armadura, sua espada era sem duvidas uma das armas mais perfeitas criadas no inferno.
   Ele chega até seu corcel que batia as patas dianteiras no chão ainda se mostrando ansioso, a chama que saia de suas ventas, agora incinerava mais calmamente, seu relincho era como a de um cavalo normal, mas havia uma sonoridade diabólica no som produzido por aquele animal maligno.
Após montar-se em seu corcel, outro circulo semelhante ao primeiro surge à frente deles, era outro portal, mas desse ao invés de chamas calorentas e labaredas de fogo do inferno, surgia uma lebre brisa ventosa, sinal que o lugar que os aguardava era frio, talvez fosse noite, ou madrugada do outro lado daquela passagem.
   Ele monta e novamente puxa as rédeas do animal, que entende aquilo como uma ordem de parar ou andar para trás como era daquela vez para pegar distancia para novamente saltar pelo portal. Antes de dar o comando ao corcel de prosseguir no salto, o cavaleiro olha brusca e ligeiramente para o lado de seu mestre, onde estava sua filha de olhos branquíssimos como duas esferas reproduções perfeitas da noite mais clara de lua cheia.
   Eles avançam velozmente rumo à passagem, o corcel salta quase que voando do chão levando seu montador que o segurava firmemente pelas rédeas atravessando-a e novamente evanescem no ar, junto com o portal. Ressurgindo ao mesmo tempo em um lugar engolido pela noite, seu corcel relincha alto, o fogo que surge de suas ventas é a única iluminação do local, fora a lua que no momento encontrava-se oculta por nuvens negras que logo desapareceriam.
   Se deparam frente a um novo abismo, este era tomado pela quietude da noite, e brisas suaves, frias, despertou novamente a sensação de paz no cavaleiro, ele desmonta de seu corcel, aproxima-se mais do abismo, fica a um passo do precipício, e olha para baixo, fascinado, não vê o fundo daquilo, é exatamente igual a sua cabeça, não havia lembranças, apenas o nada, sua memoria fora apagada após o pacto, recordava-se apenas disto, agora lutava para recupera-la. Não fazia esforço para isto, na verdade nem sabia se realmente queria saber do seu passado, sendo que ele nunca poderá ser o mesmo de antes. Seria eternamente um servo do ser maligno, senhor do inferno.
   No exato momento que pensava no seu mestre, a calmaria do lugar é quebrada subitamente pela agitação nervosa do seu corcel, ele havia pressentido a presença do guardião Cérbero, latidos estridentes estrondavam em eco iludindo o cavaleiro a respeito da direção do barulho. As latidas eram cada vez mais altas e estridentes, sinal que a monstruosidade se aproximava cada vez mais. Ela estava correndo em direção a eles, corria velozmente, cada cabeça latindo furiosamente, cada vez mais perto. O cavaleiro fica atento, mira no horizonte os seis pontos reluzentes de luz amareladas, surgindo e se aproximando rapidamente, eram os olhos das três cabeças de Cérbero, que corria em direção a eles arrastando uma longa e enorme corrente presa a cada uma das três coleiras nos pescoços. A criatura iria ataca-lo, não poderia feri-la, pois seu amo a queria viva, elaborou rapidamente uma estratégia mental sem a menor certeza de que daria certo. Espera atentamente a fera aproximar-se. Como de costume seu corcel se afasta do local onde deverá ocorrer o confronto, mantendo sempre uma distancia segura, pois apesar de possuir a mesma vestimenta do material da armadura do cavaleiro, ela não tinha proteção que o livrasse da morte, e ainda apesar das habilidades sobrenaturais, ainda era um animal vivo como qualquer outro, por isso era preciso manter distancia dos confrontos de seu montador a quem era unicamente fiel.
   Cérbero se aproxima rapidamente, revelando-se uma criatura com cinco vezes o tamanho do corcel do cavaleiro negro, mas seu tamanho parece não incomodar o cavaleiro, que firme como o guerreiro sem medo que sempre foi apenas mantem a postura. A cabeça do meio da criatura monstruosa, com sua boca aberta deixando expor seus enormes dentes e com ainda restos de corpos e de ossos presos por entre os dentes, parecia a primeira a investir contra ele.
   O cavaleiro negro que apenas aguardava o momento certo e oportuno para por seu pequeno plano em pratica encontrava agora o momento perfeito para pô-lo em pratica, a criatura avança na tentativa de abocanha-lo, ele após um pequeno impulso em suas pernas, salta por cima da criatura, deixando-a seguindo desenfreadamente rumo ao abismo. Ele cai pesadamente depois de ter saltado por cima da criatura monstruosa, e apenas olha para trás, vendo-a cair pelo penhasco, “uma criatura tão irracional, não havia percebido o abismo arás de mim” pensou consigo mesmo enquanto desembainhava sua espada e fincando-a firmemente por entre as correntes que corriam rumo ao abismo, Corrente essa que salva a criatura de cair penhasco abaixo, ficando suspensa presa apenas por ela, que era segurada pela espada negra que havia sido fincada exatamente dentro do elo da corrente.
   O cavaleiro negro caminha a passos pesados novamente até a beira do precipício, ele olha para baixo, como que para se certificar que a criatura monstruosa ainda estivesse lá. Ela esta, seu corcel o acompanha, coloca e desce a cabeça para o precipício para assim poder admirar também, agora relinchava mansamente como que saudando seu montador pelo feito astuto e corajoso.
   Cérbero gemia sentindo a dor de suas coleiras sufocando lhe, parecia implorar para que o tirassem dali, nessa hora, surge uma nova passagem, diferente das anteriores, essa era bem maior, levava ao exterior dos muros que rodeavam o castelo no inferno, o ponto que antes Cérbero atuava como cão de guarda, e voltaria. O cavaleiro negro vai em direção a sua espada, põe a mão envolvida por luva com pontas metálicas, sobre ela, e antes que pudesse removê-la para soltar a criatura de volta para o inferno, uma voz feminina e delicada entra em sua mente:
- ele quer ser livre, não o mande para o inferno.
   De assombro e espanto ele rapidamente tira a mão da espada, e olha em volta, não há ninguém... quem deve ter pronunciado estas palavras? Quem era a dona daquela voz tão delicada e encantadora? Pensou consigo mesmo.
   Lembrara-se da filha de seu mestre, sabia que fora ela que havia libertado Cérbero, agora fazia sentido a fuga desse monstro, a filha de meu mestre havia libertado propositalmente aquela fera, queria deixa-la livre, ela tinha um bom coração.
   Mas lembrar do belo rosto daquela belíssima senhora, e ouvir a voz suplicar para cessar o ato, não foram suficientes, para entrar no coração gelado e quebrar a fidelidade que ele tinha pelo seu mestre. Ele apenas arranca a espada do elo que pendia a corrente deixando a enorme criatura cair dentro da passagem para o inferno. Em seguida a passagem se fecha.
   Olhando novamente para a imensidão do abismo, quase ignorou os gemidos da criatura, semelhante a um choro de um cachorro desolado e com medo, que ele havia mandado para o inferno. 



18 de novembro de 2012

O Vestido Vermelho - por Salomon


O VESTIDO VERMELHO – POR SALOMON

(baseado na obra de Edgar Allan Poe: O Retrato Oval)

   O amor não pode ser descrito em palavras, e nem retratado em quadros, pinturas poemas, nada descreve o amor, somente vivenciando-o é possível compreende-lo...
  Eu tinha apenas 26 anos e era um simples e apaixonado artista.  Artista não por minhas pinturas extravagantes, delicadas e perfeitas, mas por ser o único que dedicava tantas obras pitorescas a sua amada com tantas dedicatórias e inspirações, sim eu era esse romântico, e minha amada fonte de inspiração era a belíssima senhorita Anne Winnek, para mim simplesmente a mais bela e perfeita mulher que já existiu.
Nossa história de amor começou em um baile...
   Foi o meu melhor amigo Marcus que me apresentou casualmente, a lindíssima senhorita       Anne, que dançava solitária em um canto isolado usando um belíssimo e majestoso vestido vermelho. Eu nervoso como sempre, só falava balbuciando, mas fiquei confortado e seguro quando ela mencionou que admirava minhas pinturas artísticas, e que eu era simplesmente um artista perfeito para ela, aquilo me deu uma sensação de prestígio, pois ouvir aquilo da pessoa que eu mais amava platonicamente era algo delirante.
   O pedido de namoro foi um ato consequente meio que um tanto irracional e direto, já que eu a amava desde muito tempo, e só agora havia encontrado coragem para uma aproximação como esta.
   Ela aceitou e correspondeu ao meu pedido de namoro, nosso primeiro beijo foi magnífico, apesar da minha desenvoltura, pois era o meu primeiro beijo, a mulher da minha vida estava comigo, nos amávamos, nos correspondíamos, nos apreciávamos. Estar com a senhorita Anne era simplesmente “magico”. Durante o meu namoro com ela, eu conseguia coragem e inspiração para criar as mais belas obras, pinturas paisagísticas perfeitas e delicadas, ricas em detalhes, dentre minhas obras dedicadas a minha adorada e amada Anne, estavam vários quadros, com paisagens de lagos, uma tela retratando o pôr do sol, luas cheias, roseiras bem vivas, e uma de minhas mais belas pinturas até agora, um quadro que retratei fielmente minha amada Senhorita Anne, com seu vestido longo e vermelho, o mesmo vestido que usava no dia em que nos beijamos seu rosto rosado e delicado, seus olhos azuis e reluzentes destacaram bem seu olhar alegre, a forma com que usei as cores e os traços delicadíssimos, dava perfeição divina fiel a minha obra prima, quando ela viu seu quadro pintado tão fantasticamente perfeito, me beijou em agradecimento, novamente repetindo que eu era o artista da vida dela, eu humildemente apenas disse que: “o fruto de minha inspiração era mais ainda tão belo quanto à obra em si”.
    Não nego que eu estava magnetizado pela beleza de Anne, meu amor jovem, infantil, inocente e confiante, parecia inabalável, mas eu não contava com algo insignificante e devastador, atormentador causador de dores emocionais e angústias, uma maldita desilusão.Vou tentar simplificar os fatos para melhor compreensão de meus leitores.
   Foi na ultima noite de Outono daquele ano, minha amada Anne morava com os pais, em um bairro nobre da cidade, e eu há muitos quarteirões dali, trabalhava a noite e por isso raramente chamava minha amada Anne para um jantar romântico, somente de dia desde o amanhecer até o finalzinho das tardes eu podia vê-la, e quando nos encontrávamos, passeávamos por parques, jardins e ruas tranquilas.

   Certa ocasião, pela primeira vez, eu a levei para conhecer minha casa, ela se admirou com minha galeria pessoal de arte, quadros em todas as paredes, tinta esparramada no chão, as pinturas no teto que eu mesmo havia produzido, mas algo havia chamado a atenção de minha amada, ela se dirigiu para uma porta que estava entreaberta e adentrou-a tomada de curiosidade, e ficou maravilhada ao contemplar uma de minhas maiores façanhas não concluída na época.

   Era simplesmente uma tela de seis metros de altura por cinco de largura, presa na parede, ela continha apenas rabiscos e cores formando a silhueta de uma figura feminina trajando um enorme vestido, ela percebeu que era uma reprodução do outro quadro que eu havia dedicado a ela só que em uma versão bem maior, a obra estava quase concluída exceto pelo enorme vestido que faltava pintar de vermelho, bastava isto para concluir a obra, mas infelizmente toda minha tinta vermelha havia se esgotado, e minha situação financeira precária não permitia comprar mais tinta naquele período, eu esperava concluir a obra mais adiante, quando conseguisse comprar mais tinta vermelha.  Expliquei isto a ela, e maravilhada com minha ideia, abraçou-me afetuosamente, pensei que havia conquistado seu amor, uma maldita ilusão. Após isto a acompanhei até sua casa, fui recompensado com mais beijos e abraços apaixonados, voltei para casa, estava extasiado, mergulhado profundamente naquela paixão louca e demente.
   Pobre de mim, mal sabia a grande decepção que me aguardava...
   Foi na semana seguinte que aconteceu o episódio mais lamentável de minha vida, eu havia vendido quadros, com minhas pinturas obtive um bom lucro, poderia comprar a tinta vermelha para concluir minha obra prima, mas meu amor por Anne era mais “atrevido”, optei então no lugar da tão precisa tinta vermelha, comprar uma aliança para Anne, estava decidido a pedir sua mão em casamento, acabei que me endividando um pouco mais para conseguir a aliança, tudo pelo meu amor ilusório e cego por Anne.
   Naquela sexta feira, haveria um feriado, meu chefe me liberou do fardo do trabalho, eu teria a noite de folga inteira para dividir com Anne, defini que faria uma surpresa a ela, visitando-a em casa e pedindo-a em casamento na frente de seus pais, já que estes tão bem me recebiam e respeitavam em sua casa.
   Em casa, pus-me a vestir minhas melhores vestes, meu melhor par de sapatos, o perfume mais aromático, e por fim coloquei a aliança em meu bolso, me dirigi caminhando por alguns quarteirões, rumo à casa de Anne, pelo caminho, ensaiava como faria essa proeza tão delicada de pedi-la em noivado, após alguns minutos cheguei à porta de sua casa.
   A casa composta por dois andares, uma casa nobre como mencionei antes, a família de Anne era zelosa com a casa. A Porta estava entre aberta, adentrei-a sem fazer barulho, esperando encontrar Anne e seus pais na cozinha degustando um jantar em família, mas não, na cozinha não havia ninguém, verifiquei a sala, parecia que não havia nenhuma pessoa em casa.
   Tratei de subir as escadas, estas levaram até um corredor onde com os quartos, me senti lisonjeado ao ver nas paredes daquele corredor, alguns quadros meus que havia presenteado Anne, eles estavam depositados em molduras de madeira entalhada, aquilo e fez brotar em meu rosto um sorriso indescritível, a sensação de que saber sua obra é reconhecida e preservada, faz qualquer artista se sentir exaltado.
  Ainda caminhando pelo corredor da casa, chamava por Anne com a voz em tonalidade mínima, pois pensava que seus pais já poderiam estar dormindo, por fim, passei pelo quarto dos pais de Anne, a porta estava aberta, coloquei minha cabeça no interior do cômodo, nenhum sinal dos pais de Anne, algo que levantou uma suspeita, mas ignorei aquilo, continuei caminhando a passos leves pelo corredor até chegar ao quarto de Anne.
   No quarto dela não havia porta, as luzes estavam acesas, e havia um barulho incomum no quarto, me aproximei mais, e fiquei imóvel ouvindo ao barulho, permaneci assim até ficar aturdido ao perceber aquelas vozearias eram gemidos intensos de gozo e deleite. Reconheci fácil a inconfundível voz de Anne, mas havia mais alguém no quarto, fazendo volúpia, altas obscenidades com a mulher da minha vida. Fiquei atormentado, mas um tanto curioso, e acabei fazendo como no quarto anterior, pus minha cabeça cuidadosamente no quarto para observar e entender o que acontecia ali, e o que meus olhos viram acabou que me causando algo que é indescritível, algo que havia me matado por dentro e me dilacerava a alma.
   Meu caro leitor deve se lembrar de Marcus que mencionei como meu melhor amigo no inicio desta narração, pois bem, então, foi este mesmo individuo que meus olhos haviam encontrado na cama de Anne, por cima dela, cobertos pelo edredom, estavam com as cabeças expostas se beijando, e fazendo obscenidades corporais, sexo.
   Logo, retirei minha cabeça do quarto, me encolhi inconformado no chão do corredor, peguei a aliança do meu bolso, e a arremessei pela janela aberta que havia ali, meu estado naquele momento se resumia a decepção, tristeza e amargura, me sentia humilhado, sentia aflição, uma tristeza malvada, desgosto e ao mesmo tempo ódio. Tanto amor e dedicação a uma pessoa para acabar em uma decepção humilhante como esta. Tantos quadros artísticos e poemas dedicados a ela por uma ilusão amorosa. Mas tudo isto para que no dia em que a pediria em noivado, testemunhasse aquela coisa que um dia chamei de melhor amigo, me apunhalar pelas costas daquela forma. Logo me lembrei da tela gigante que era o retrato de   Anne que faltava concluir, e tratei de elaborar meu plano de vingança contra aqueles dois pérfidos malditos.
   Desci silenciosamente as escadas e voltei à cozinha, tratei de pegar a faca de mesa em uma das gavetas do armário, junto peguei um recipiente de metal que continha uma alça, semelhante a um balde, com as mesmas proporções só que com capacidade para mais de litros. Tratei de subir com esses dois objetos de volta ao corredor no andar de cima até a porta do quarto onde aconteciam as obscenidades dos dois, era uma tortura cruel ver aquilo diante dos meus olhos, afinal eu a amava, tratei de caminhar até o lado da cama até ficar bem próximos dos dois, sem estes notarem minha presença, e com habilidade e força em um movimento muito bem calculado, eu desferi um golpe ligeiro com a faca direto no pescoço de   Marcus que sem forma de revidar ao golpe, levou as mãos até o pescoço, tentando tapar com as mãos o corte profundo e mortal que lhe causei, começou a sangrar desvairadamente sobre a cama, seu sangue jorrava a metros. Anne ao ver o oque acontecia soltou a vós em um grito agudo que doeu até meus tímpanos, mas rapidamente, calei-lhe com outro golpe de faca direto no pescoço, e agora seus gemidos que antes eram de prazer e gozo, agora era de agonia e sofrimento.
   Vendo os dois ali morrendo sangrando até a morte, ainda não me satisfazia totalmente a vingança, faltava algo ainda. Tratei então de aparar o sangue que jorrava de Marcus com balde até a metade, depois tratei de aparar o sangue de Anne minha amada, até o recipiente transbordar o liquido avermelhado e viscoso.
   Em seguida com o balde em mãos, deixei o local, Anne e Marcus já estavam mortos, mas faltava concluir algo, caminhei tranquilo levando o recipiente com o sangue pelas ruas da cidade até chegar a minha habitação, abri a porta e fui direto ao quarto onde estava minha obra prima não concluída, aproximei-me da parede que apresentava minha tela gigante, vislumbrei os traços, as cores já existentes na obra e por fim a parte que precisava ser preenchida e concluída que era o vestido vermelho de Anne. Estava em branco toda a reprodução do vestido, tratei logo de mergulhar um pincel no balde de sangue, e passeá-lo sobre a tela, preenchendo de vermelho denso, a minha obra de arte. Aquela tela com aquele retrato com aquelas cores refletiria o amor, a ilusão e traição, para sempre.