8 de outubro de 2015

ATÉ O FIM ( parte 2)

       Parte 2


                                                               
            Erick ainda estava profundamente abalado. Enquanto dirigia rumo a sua casa em um bairro pouco distante dali, seus pensamentos se voltavam hora para o estranho que tentara salvar a vida levando ao hospital, hora concentrado nos ferimentos do braço do rapaz. Pensava naqueles ferimentos, aquelas estranhas marcas de mordida que não lhe eram incomum apesar de saber que nenhum animal deixaria uma marca assim, nenhum exceto o homem.
            Chega! Erick não queria mais pensar naquilo, uma vida se fora, mas ele fez tudo o que podia fazer, não tinha culpa de nada e agora só queria esquecer o que aconteceu. Ligou o radio do carro. Que sorte, tocava sua musica favorita. Durante alguns minutos a viajem fora tranquila ao som de sua trilha sonora, cantada pela voz de uma deusa da musica, seu maior ídolo. A noite parecia calma, não havia movimento de carros nem de pedestres, parecia que a cidade toda estava adormecida. Com a musica, Erick se distrai, não nota uma estranha passando na frente do seu carro sem olhar para os lados. Já era tarde demais para se desviar, o acidente foi inevitável. Com a violência da batida, o corpo fora praticamente arremessado, vinte metros na frente do carro.
            Assustado, Erick sai do carro e corre em direção ao corpo arremessado no chão, enquanto isso, no radio do carro, sua musica era interrompida por um alerta regional:

(...) Atenção habitantes, quem vos fala é o agente de segurança nacional, quero que prestem muita atenção no que vou falar: Uma horrível infecção infestou a cidade. Os infectados são pessoas perigosas e agressivas, por tanto tomem muito cuidado. Aconselhamos a todas as famílias que fiquem em suas casas e lá permaneçam até o problema ser amenizado. Por favor, não saiam de suas casas, e se virem alguém, com os olhos totalmente brancos, corram, é um infectado! Permaneçam com o radio ligado para mais informações em breve! Tenham uma boa noite. Obrigado (...)
            Erick estava distante, não conseguira ouvir o alerta no radio, estava longe prestando socorro a estranha mulher que entrara na frente do seu carro. Ao se aproximar, Erick nota a perna da moça dobrada para trás, quebrada, pior, sua perna estava em estado avançado de decomposição, deveria ser uma doença ou algo do tipo, Erick não deu atenção a isso. A jovem era uma moça, uma adolescente, parecia estar desacordada. Não lhe surpreende, depois de uma batida violenta como aquela, a jovem deveria no mínimo desfalecer-se, perdendo todos os sentidos, ou mesmo, a vida. Mas Erick se surpreende depois de se aproximar dela, e ver a jovem abrir os olhos e gemer como se agonizasse com a dor do impacto da batida.
            —Moça, você está bem? Eu não a vi atravessando a rua, me perdoa, olha... Já estou chamando a ambulância. — Dizia Erick pegando o celular no bolso e discando o numero de emergência. Esperou atenderem, mas o outro lado da linha não dava sinal de vida. Após longos segundos de espera, desiste. A jovem se contorcia e gemia deixando Erick agoniado e sem saída. Não sabia o que fazer, Tinha medo de fazer o mesmo que fizera com o outro que tentara salvar, mas tinha medo. Ela estava em um estado muito pior que o outro, precisava ficar parada, imobilizada. Um carro pequeno não era um bom transporte naquela situação, ela precisava urgentemente de uma ambulância, pensava Erick.
            Desesperado, fica ao lado da moça, perdido e sem saber o que fazer, logo avista um grupo de cinco pessoas, caminhando um pouco longe, há dois quarteirões. Erick grita por socorro.
            —Ei, vocês ai, alguém ajuda! Ela foi atropelada precisa de ajuda rápido!— E em resposta, os cinco se voltam para Erick com olhares famulentos. Se Erick os observasse com atenção, veria que um estava sem uma das orelhas, outro sem um dos braços e o mais assustador, havia um sem metade da cabeça. Ambos se apressaramm correndo em direção a Erick.
            —Ótimo moça, eles estão vindo ajudar— Dizia Erick enquanto voltava-se para a moça, mas ao voltar-se para trás, seu corpo estremeceu. A jovem levantava-se sozinha, mesmo sobre a perna quebrada ela punha-se de pé. Erick aquiesceu-se, assustado, olhava nos olhos da jovem, não viu nada além de suas órbitas brancas cercadas por grossas olheiras negras. Era um zumbi praticamente. Pálida como cadáver, ela rosnava como um animal faminto que de fome ameaçava atacar. Ela parecia fita-lo como se fosse à presa da vez. De repente, ela o atacou.
            Erick se esquivou da jovem que tendo errado seu alvo, caiu no asfalto desajustada como uma boneca sem vida, em seguida, novamente ela ficou de pé e voltando-se para trás, na direção de Erick.  Ele, ainda mais assustado do que antes, recua alguns passos, ela avança na mesma proporção, de repente um susto. Os cinco estranhos que corriam em direção a eles, subitamente surgiram por trás da jovem e começaram a mordê-la, esquecendo por um breve momento que ali perto havia carne mais fresca.
            Aterrorizado, Erick sentiu seu sangue gelar nas veias, tentou correr, mas suas pernas travaram de medo. Não conseguia se quer desviar o olhar daquela cena de canibalismo, e por que não? O homem é o ser mais abominável da face da terra. De tão aterrorizado não fez esforço para se afastar de um dos estranhos sem o braço que o notara ali perto e agora se aproximava, rosnando como um bicho selvagem. Somente com a dor de uma mordida na perna, Erick como se despertasse de um pesadelo voltou a si. Chutando a cabeça do que o havia mordido, acabou chamando atenção dos demais que devoravam a jovem. Agora todos o viam como um saboroso pedaço de carne viva.  Erick correu o mais rápido que suas pernas permitiam.
            Nova surpresa, ao virar a esquina, deparou-se com uma multidão de seres com olhos brancos e caminhar vagaroso que rosnavam e grunhiam como animais. Evitou seguir adiante, continuou a correr sem direção, evitando passar pelos zumbis, não adiantava, eles estavam por toda parte, infestando a cidade como uma praga que se alastra rapidamente por um campo de verduras. Após muito correr, só encontrou um lugar com as postas abertas para onde ele pode se refugiar. Sem escolha, correu para a delegacia local.
            Ao fechar as portas atrás de si, Erick se surpreende com o interior da delegacia. Esperava encontrar algum sobrevivente, alguma pessoa normal que pudesse ajuda-lo, mas infelizmente, isso, ele não encontraria por ali. O lugar estava totalmente devastado, como se um furacão tivesse passado por ali. Havia bagunça por toda parte, cadeiras quebradas, mesas jogadas e todo tipo de objetos espalhados pelo chão. Com certeza os zumbis haviam passado por ali, mas será que ainda estavam ali? Por precaução, Erick revistou as gavetas de uma das mesas do escritório do delegado, acabou encontrando uma arma ponto-40 com um pente cheio. Erick nunca havia manuseado uma antes, mesmo assim, guardou-a no bolso.
            Do escritório do delegado, Erick saiu rumo à ala onde ficavam as celas dos presos. Enquanto se aproximava do corredor das celas onde deveriam estar os detentos, um ruído fino, quase inaudível ganhava mais definição, à medida que Erick se aproximava das celas, o ruído crescia. Antes de aproximar mais um passo a frente, sacou e destravou a arma, era melhor ficar atento caso encontrasse outro zumbi. Prosseguiu a passos lentos e silenciosos na direção do estranho ruído. Logo chegou ao corredor com celas abertas. Deveria haver detentos presos ali, mas não, o lugrar parecia deserto. Durante a epidemia, devem ter aproveitado o caos para uma rebelião e fugir, por isso, o lugar inteiro encontrava-se aberto. Seguindo em frente, Erick chegou à fonte do ruído. O barulho vinha do interior de uma das celas dos detentos, era preciso checar, fazer o ruído parar, pois poderia atrair os zumbis para a delegacia.
            Era preciso chegar mais perto, entrar no interior da cela para descobrir. Erick o fez. Apesar da pouca iluminação dava para ver bem os uniformes da policia amontoados no canto da cela. Eram os policiais, de costas, encolhidos no canto. 
            —Olá?
            Todos se voltaram para Erick que agora consegue ver de onde vinha o ruído. Havia um detento, gemendo de dor, sua cabeça estava entre as grades da cela onde estava trancafiado, tamanho era seu desespero durante a rebelião, tentou em vão atravessar as grades para se salvar, agora estava a ser devorado pelos policiais zumbis. Um deles, ao ver Erick, carne viva, ataca-o. Erick aponta sua arma na direção do policial zumbi efetuando dois disparos. Com o barulho dos tiros, os outros zumbis se alertam, Erick corre.
            Desesperado, Erick atira a esmo nos policiais zumbis que o perseguiam, assim, conseguindo mais tempo para fugir. Precisava refugiar se isolar se quisesse sobreviver. Logo consegue chegar à sala do delegado. Ele adentra a sala, fechando a porta com a mesa do escritório sabendo que aquilo não os segurará por muito tempo. Não havia mais o que fazer, pois os zumbis já estavam atrás da porta, arranhando-a com unhas e dentes, desesperados para cravar os dentes na carne de Erick. 
            Erick tira o pente da arma, tinha apenas uma única bala. Olha em volta, deveria haver algum pente sobrando naquela sala, mas não encontrou. No lugar disso, encontrou sobre um armário de metal em um dos cantos do gabinete, um aparelho de radio. Apesar de não ser a melhor hora para ouvir musica, Erick o liga no momento que era transmitido novo alerta regional:
            (...) Lamentamos comunicar novas e más noticias sobre a infecção que está tornando nossos habitantes em verdadeiros canibais, agora, para quem estiver me ouvindo, estou aqui com o Doutor Lee, Um dos responsáveis pela produção do vírus do zumbi.
            Dr. Lee— Por favor, primeiro peço que prestem bastante atenção, quero que todos os sobreviventes que estiverem ouvindo permaneçam em suas casas e não saiam, as ruas estão infestadas dessas coisas. Segundo: tomem muito cuidado para não ser mordido pelas criaturas, pois o vírus é muito contagioso, apenas um leve corte dos dentes ou unhas deles é o suficiente para infecta-lo, matando-o aos poucos. Após a morte o resultado é o infecto tornar-se um canibal, como eles. Terceiro (...)
            Erick novamente aquiesceu-se quando as luzes se apagaram, algum zumbi maldito devia ter quebrado o quadro de energia fazendo o quartinho apertado escurecer totalmente. Agora Erick via-se no inferno. Não havia luz,  não havia mais rádio, não havia mais saida. Estava preso em um gabinete no interior de uma delegacia infestada de zumbis que queriam devora-lo a todo custo. Erick ainda sente a forte dor na perna, logo, lembra que fora mordido por um dos zumbis enquanto socorria a moça. Agora as palavras do médico ecoavam em sua cabeça:

            “Tomem muito cuidado para não ser mordido pelas criaturas, pois o vírus é muito contagioso, apenas um leve corte dos dentes ou unhas deles é o suficiente para infecta-lo, matando-o aos poucos. Após a morte o resultado é o infecto tornar-se um canibal, como eles”.

            Era o fim para Erick. A dor pequena mordida em sua perna doía como se tivesse pisado em uma mina. Pior era saber que em breve, se tornaria um canibal como os outros. Não havia cura, não havia escapatória. No escuro da sala Erick recoloca o pente na arma, destrava-a e em seguida leva até a cabeça. Do lado de fora da delegacia ouve-se um disparo, um clarão de luz, iluminou o escuro no gabinete do delegado naquela noite. 

                                             FIM



4 de agosto de 2015

ATÉ O FIM (PARTE 1)

   

            Desesperados, os médicos corriam contra o tempo levando um paciente em uma maca sobre rodas pelos corredores do hospital. Durante o trajeto, a vítima gemia alto, seu braço sangrava e seu corpo tremia.
            —Muito bem, o que temos aqui?— Perguntou o doutor enquanto lavava as mãos e punha as luvas.
            —O paciente é caucasiano branco, identidade desconhecida foi encontrada na beira de uma estrada. Parece que foi atacado por algum animal selvagem, perdeu muito sangue e seu braço foi literalmente devorado— Respondeu o médico auxiliar.
            —Oh muito bem, e agora qual o procedimento?
            —Vamos... Amputar o que restou do braço devorado e tentar reanimar o paciente.

            Minutos depois, durante a operação médica, o paciente mesmo desacordado ainda gemia de dor, mesmo sob o efeito de anestesia e sonífero aplicado antes da operação o que deixava o médico e seus auxiliares ainda mais nervosos.
            —Coloquem-no para dormir! — Pedia o dirigente.
            —Não dá, não dá! Com a dose que demos nele, derrubaria até um elefante! — Respondia um dos auxiliares.
            —Frequência cardíaca diminuindo drasticamente, Estamos perdendo o paciente! — Anunciou outro.

            Enquanto os médicos desesperados tentavam não perder o paciente, Erick que foi o motorista caridoso que o encontrara na estrada, inquietava-se na sala de espera junto com outros pacientes e familiares dos mesmos. Sentia-se estranho, a todo momento lembrava e relembrava dos ferimentos que o rapaz tinha no braço. Lembrava-se de como ficou espantado ao ver aquele corpo quase morto na beira da estrada e do quanto ficou assustado ao ver o estado que o braço do estranho quase totalmente devorado por mordidas que ele nunca vira antes.
            Que tipo de animal feroz atacava daquela forma uma pessoa? Que tipo de animal deixava aquelas marcas de mordidas estranhas? Mordidas até muito semelhantes, as marcas dos dentes pareciam até... Humanas!
            —Olá, o senhor é que acompanha o paciente que foi encontrado na beira da estrada?— Erick se assusta, estava tão concentrado em pensamentos que nem notara o médico se aproximando.
            —Sim sou eu, ele está bem?
            O médico hesita em dar-lhe a trágica noticia, um breve momento de silêncio fez-se na sala de espera. Então de cabeça baixa o médico responde:
            —Fizemos de tudo para salva-lo, mas, não foi o suficiente. Ele morreu após uma convulsão.
            Erick aquiesceu-se, mesmo não sendo amigo, parente nem mesmo conhecido do paciente que se fora, sentia-se mal pela morte do rapaz que tentara salvar. 
            —Você conhece os familiares do jovem?— Indaga o médico.
            —Não.
            —Tudo bem então, está tarde, sei que quer ir para casa, você já pode ir agora. O corpo ficará no IML para ser identificado por pessoas que tenham perdido algum familiar amanhã.
            —Certo então, obrigado!
            Enquanto Erick se dirigia a saída do hospital, o médico que ficara era chamado por um dos auxiliares que desesperado o procurava.
            —Doutor! O paciente... Na emergência, parece que não morreu.
            —Meu Deus! Como isso é possível?
            —Não sei, mas venha ver!
            Juntos os dois correram para a sala de emergência e lá chegando tiveram um a grande surpresa, o paciente que recentemente tivera o braço amputado e que todos achavam que não tinha sobrevivido agora se debatia na mesa de cirurgia, rosnando e grunhindo de forma estranha como se fosse um animal feroz. Em um dos cantos da sala, um dos médicos sangrava, um ferimento em seu braço fazia-o sangrar como uma corredeira, outro médico o ajudava a enfaixar o ferimento.
            —O que aconteceu aqui?
            —O paciente acordou, se debateu e nos atacou atacou, quase não conseguimos contê-lo, foi necessário usar todas as cintas da mesa de cirurgia para imobiliza-lo. — Respondeu o médico que enfaixava o braço do amigo.
             —Está me dizendo que o paciente ressuscitou dos mortos e atacou vocês? Mas como isso é possível? Não pode ser! Não pode!
            —Pessoal... Eu não me sentindo bem! — Interferiu o médico ferido.
            —Ele mordeu você?! Ah meu Deus! Temos que cuidar logo do seu ferimento antes que... — Mas antes que o Doutor terminasse a frase, o paciente conseguiu se libertar das amarras que o prendiam e atacou-o por trás, abocanhando violentamente seu pescoço. O médico gritava  de dor, os outros correram para ajuda-lo. Juntos e com muito esforço conseguiram separar o paciente e prendê-lo novamente na mesa de cirurgia com as amarras. Do pescoço do médico atacado, sangue era jorrado nas paredes. Um clima de tensão e horror assolava os rostos de todos na sala.
            —Rápido, o Doutor precisa de ajuda aqui! — Gritava o médico auxiliar. Naquele mesmo momento, um novo susto. O médico que fora o primeiro a ser atacado pelo paciente que se recusara morrer levantou-se com uma expressão abestalhada no rosto e por alguns segundos encarava os outros médicos.O médico estava diferente, não parecia mais humano. Seus parceiros o olhavam assustado.
            —Ei! Você está bem?— Perguntou um deles. E em resposta, todos o ouviram rosnar, em seguida começou a ataca-los com os dentes. Todos entraram em pânico.
            O pânico não estava presente apenas naquela sala, o hospital inteiro estava em decadência. Sangue para todos os lados, corpos no chão, alguns se arrastando, outros correndo e perseguindo pessoas. Os gritos dos perseguidos ecoavam por todos os corredores, enquanto os que o perseguiam, apenas grunhiam e rosnavam como animais selvagens.
            Logo já não havia mais sobreviventes no hospital, todos os que foram mordidos por um dos que grunhiam, quando não era todo devorado, ficavam como eles, após morrer, mesmo sem o coração bater, seus olhos agora brancos se abriam, seu corpo se erguia de pé. Quando não havia mais pernas para sustentar o corpo, eles se arrastavam com as mãos e unhas a procura do que comer, carne humana, viva. 

CONTINUA...

7 de junho de 2015

Clara e Clarice - Por Salomon

      


          

          Clarice tinha apenas seis aninhos e uma vasta coleção de bonecas.Ela gostava tanto que vivia cercada por elas, por todo o seu quarto haviam armários, estantes e prateleiras onde ficavam suas bonecas. As suas favoritas eram as de tamanho real, quase a sua própria altura mas havia uma em especial que Clarice dizia ser sua favorita e a chamava de Clara.
         Clara era dessas bonecas com o rosto de porcelana com grandes olhos de vidro, era a boneca mais realista da coleção de Clarice. A forma como seus olhos eram delineados, a marca vermelha em seus pequenos lábios, e ate o material usado para reproduzir suas unhas, tudo nessa boneca era absurdamente realista.
         Certa vez, de súbito, acordei com um barulho que vinha do quarto de cima, era onde ficava o quarto de Clarice. Ao levantar-me da cama e subir as escadas, tinha a vaga impressão de estar ouvindo vozes vindo do quarto, mas quando abri a porta não havia ninguém alem de Clarice sentada sobre o carpete com Clara sentada sobre uma cadeirinha de balançar infantil no canto do quarto.
         Ao deparar-me com aquela cena pronunciei estas palavras:
-Clarice isto não é hora de brinca com suas bonecas, já se passa da meia noite,  volte a dormir.- Mas a resposta de Clarice me deixara aflito:
-Mas pai a Clara disse que se eu não brincar com ela, ela vai me matar.- Contudo olhei para a boneca e senti medo, aquelas grandes bolas de vidro em seu rosto pareciam bem vivas fitando o vazio. Peguei a boneca e a coloquei em uma prateleira escondida das demais. Logo, Clarice se pronunciou:
-Pai... Você colocou a Clara perto da Suzy!
-Qual o problema filha?- Perguntei estupefato e ela respondeu:
- Pai, ela odeia a Suzy..-
         Visto que Clarice estava começando a me assustar de verdade, engoli em seco e a ordenei que voltasse a dormir imediatamente e que amanha como castigo doaria todas as suas bonecas a um orfanato.Todavia a reação de minha filha me espantara mais uma vez. Levantando do carpete ela veio ate mim e agarrou-se às minhas pernas implorando:
-Não fala isso perto dela pai, ela pode ouvir, mas se você vai deixa-la perto da Suzy por favor, me deixa dormir com você e a mamãe.
         Já sem paciência, cedi ao pedido de Clarice e voltei com ela a dormir no nosso quarto.  Clarice dormia no meio entre sua mãe e eu.
         Horas depois fomos os três Dessa vez acordados por um novo barulho que vinha do quarto de Clarice. Ambos corremos para ver o que se passava mas a porta estava trancada por dentro. Precisei usar toda minha força no ombro para arrombar a porta e quando essa finalmente cedeu, um arrepio estranho me fizera estremecer tendo eriçado todos os fios de cabelo em meu corpo. No interior jazia uma bagunça, bonecas sem suas cabeças jogadas pelo chão e uma que Clarice chamava de Suzy, sem os olhos e presa pelo pescoço nas cordas da cortina da janela do quarto enquanto Clara balançava suavemente em sua cadeira de balanço até parar totalmente, parecendo nunca ter se movido, mas aqueles grandes olhos de vidro fitando vivo a denunciava. Cercamos a dita boneca e a observamos. Clarice desabou:
-Não gosto mais da Clara, ela tem muito ciúme quando brinco com as outras bonecas e não brinco com ela.
            Uma hora depois estávamos a queimá-la dentro de um latão de metal no jardim aos fundos de nossa casa. Suas cinzas foram jogadas ao vento milhares de kms da fronteira da cidade. Minha filha nunca mais brincou de bonecas. 

  
 O REI DOMINUS ESTA CHEGANDO!

Fim

19 de maio de 2015

Era uma noite qualquer - Por Salomon

               Era uma noite qualquer



          O Sr. Johnson era viúvo e lia seu jornal tranqüilamente enquanto sua filha de dez anos desenhava algo sobre à mesa poucos metros dali. Sua filha nascera prematuramente causando morte da mãe no parto.
          Apos concluir seu desenho ela o quis mostrar a seu pai que estava mais concentrado na leitura. Todavia, o Sr. Johnson já atualizado das noticias que lia em seu jornal, viu o desenho no papel. Depois de dar a folha com o desenho nas mãos do pai ela voltou a mesa e se pôs a desenhar em outra folha. Era estranho mas na folha que Johnson tinha nas mãos sua filha havia desenhado o que parecia ser ele lendo o jornal enquanto ela brincava próximo a um grande vulto escuro e indefinido próximo dela, sentado do outro lado da mesa.
      Intrigado com o desenho curioso de sua filha, ele a questiona sobre o que significa aquilo. Como o esperado ela respondeu dizendo que era ele lendo o jornal e ela brincando de desenhar com sua mãe.

         Estarrecido o pai ainda pergunta:
-Filha, sabe que sua mãe morreu não sabe?- E ela responde balançando a cabeça para cima e depois para baixo. Logo ele continua.
-Você lembra quando ela ainda vivia?
         E ela responde negativamente balançando a cabela para os lados.
-Você a vê por aqui?
         Novamente ela responde balançando a cabeça para cima e depois para baixo sem cessar os rabiscos que fazia sobre a folha  branco.
-Ela esta ai na mesa com você?
         E novamente balançou a cabeça para os lados.
-Então onde você a esta vendo?
-Agora ela esta atrás de você papai.

         O Sr. Johnson sentiu todos os pelos do corpo arrepiarem. Seu coração não suportara tamanhas emoções.

         No novo desenho feito por sua filha, agora ilustrava o vulto atrás do sofá segurando uma enorme foice.




         


     




  Dedicado à: 


Paulo meu chefe, Aquiles (totó), Diezio que agora ta de ferias no Ceará, Douglas um excelente amigo, Raimundo a quem gosto de chamar de Ramones, Falcão que deve ser o único a gostar do que estou escrevendo aqui, à Barbara aquela linda, a Cris nova amizade e revelação dessa nova carreira, à Débora por que gosto demais dela, Melissa que agora é do nosso time de mestres, à Manu Mulatim por que adoro encher o saco dela e por ultimo e não menos importante dessa equipe e industria vital, à Flavia e nosso amiguinho Otto. 


Amo todos vocês.





26 de janeiro de 2014

Jack e Eu - Por Salomon

    


Quando tinha meus doze ou treze anos de idade, a caminho da escola, encontrei na rua um filhote abandonado.
                Ele estava tremendo de frio e seu pelo estava molhado com a chuva que caiu naquela manhã, parecia faminto.
                Ao me ver, ele balançou o rabo e latiu para mim.
                Fiquei encantado com aquela linda criatura, logo, não pude deixa-lo sozinho na rua com fome e com frio...
                Levei-o para casa.
                Na cozinha arrumei um prato e coloquei meu cereal com leite para o filhote, ele estava tão faminto que acabou com tudo em poucos minutos.
                Enquanto ele lambia o prato, minha mãe chegou e ao se deparar com o filhote, gritou:
—Que droga é essa?
—Eu o achei na rua!
—Tire já esse animal da minha cozinha e leve-o de volta onde você achou.
—Mas mãe, ele não tem para onde ir!!!
—FAÇA O QUE EU DISSE MOLEQUE!!!
                Isso aconteceu há exatos dez anos e ainda me lembro daquelas palavras frias e cruéis que minha mãe dirigiu a mim.
                Não preciso dizer o quanto aquelas palavas me fizeram ferver o sangue.
                Aquelas foram suas ultimas palavras.
                Hoje o filhote cresceu e se chama Jack.
                Jack nunca se separou de mim.

                Semana passada, Jack encontrou e desenterrou os ossos da minha mãe no quintal.








11 de janeiro de 2014

Em Uma Noite Qualquer - Por Salomon





Em Uma Noite Qualquer...


—Acha que é seguro ficarmos aqui?
—Fica fria gata, a casa é abandonada então não tem do que ter medo.
—Mas e se houver alguém escondido ou um animal morando aqui?
—Escondido? À noite? Numa casa abandonada no meio da floresta?  Ha ha ha!
—Não tem graça Rafael! Que droga! Como você me convenceu a vir aqui?
— Não era você Lenny que queria ver pessoalmente a casa abandonada que eu disse que havia encontrado?
—Era, mas...  Agora que já a vimos, vamos embora...
—Espera Lenny, eu acho que a porta está aberta!
—E o que tem isso?
—Ué? Não quer entrar?
—Você está louco Rafael, nunca eu iria entrar ai!
—Ótimo então eu entro sozinho!
—Não Rafael, por favor, não entre ai!
—Que droga! A porta está trancada, mas... Se... Eu forçar só um pouquinho...
—Rafael, por favor, não!
—Só... Um... Pouquinho... Mais... (Treck!) Olha! Está aberta!
—Rafael não entra ai, por favor, você não sabe o que tem lá dentro...
—Por isso mesmo eu devo entrar, imagine Lenny, quantas coisas legais devem ter aqui.
—Rafael pense comigo, deve haver uma boa razão para os donos terem abandonado a casa.
—Nossa!
—O que foi Rafa?
— A casa está mobiliada!
—Viu só! Deve ter alguém morando nela ainda!
—Não Lenny, os móveis estão todos empoeirados. Parece que ninguém mora aqui há anos! Vem ver!
–Que droga Rafa, Vamos embora daqui... Rafa? Rafa cadê você?

—AAAAaaaahh... RAFA! NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ENTROU!


—Rafa, se você estiver escondido esperando que eu entre para você me dar um susto, fique sabendo que eu não vou entrar! Ouviu?


—RAFAAA!!!... SAI LOGO DAI...


—RAFAEL GOMES DE SOUSA, SE VOCÊ NÃO SAIR DAÍ AGORA EU JURO QUE ENTRO NO CARRO SOZINHA E DIRIJO PARA CASA MESMO SEM VOCÊ...




                (MINUTOS DEPOIS)



—RAFAEL ! PELO AMOR DE DEUS... CADÊ A DROGA DAS CHAVES DO CARRO?


—RAFAEL! EU NÃO ESTO BRINCANDO! JÁ ESTÁ TARDE E EU QUERO VOLTAR PARA CASA.



—Rafael? Eu estou com medo, por favor, não me deixe sozinha aqui...



—RAFA, EU JURO QUE SE EU ENTRAR Aí, EU VOU TE MATAR!


—Rafael? Eu vou entrar, mas se isso for uma brincadeira sua eu...


—Rafael...?

—SURPRESAAAAAAAAAA!!! FELIZ ANIVERSÁRIO LENNY!
—Parabén Lenny
—Feliz Aniversário Lenny
—Feliz aniversário gata! Espero que tenha gostado da surpresa. Opa... calma Lenny?
—O que aconteceu?
—Eu não sei pai, ela desmaiou me ajuda que ela está pesada.
—Meu Deus!
—O que foi pai?
—Ahh não!
—ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA! RAPIDO!
—Gente oque aconteceu aqui?
—Ela teve um ataque cardíaco, está morta!

29 de novembro de 2013

Robert e Miriam: Historia de pescador – Por Salomon



Robert e Miriam: Historia de pescador – Por Salomon


                Robert era um pescador. Todas as manhãs antes do sol nascer, Robert acordava, arrumava sua rede de pesca e sua canoa, em seguida ia pescar, mas sempre antes de ir para o mar, dava um longo beijo em sua amada esposa, que ficava a beira da praia, vendo-o se distanciar até sumir de vista. 
                Miriam era o nome de sua esposa, ela que todas as manhãs, despedia-se do amado na praia sob os primeiros raios de luz do amanhecer, sabendo que dali em diante seu amado só voltaria ao entardecer, quando o sol se ponha, e por isso vivia preocupada, sempre voltava a praia para esperar Robert surgir no horizonte em sua canoa. Robert sempre voltava, e de longe quando ainda estava no mar, via-se de sua canoa, sua esposa Miriam, esperando-o na beira da praia. Quando ele desembarcava sua canoa na areia, ela o seguia, os dois se encontravam e se beijavam, sempre voltavam juntos para casa.
                Assim era a rotina do feliz casal; monótona e bem simples. Até que um dia, ou devo dizer, manhã. Miriam acordou mais cedo, teve um pesadelo horrível e ficou com medo de dormir novamente. Robert acordou em seguida, e como sempre, foi logo para a praia arrumar sua rede e sua canoa para pescar. Miriam veio logo atrás e receosa, pediu para que seu marido não fosse ao mar naquele dia. Robert notou a inquietação de Miriam, e quando perguntou o que havia com ela, Miriam não soube responder, ela apenas insistia para que ele não fosse ao mar.
                Robert teimoso, apenas beijou-lhe a testa, depois pediu para que ela não se preocupasse tanto com ele, disse que a amava, assim, ele prometeu que logo voltaria para casa. Miriam estava atordoada, mas voltou a si logo em seguida quando viu seu amado Robert sobre a canoa remando para o mar. Uma lagrima correu por sua face, caindo aos seus pés na areia.
                Mais tarde naquele mesmo dia, uma tempestade violenta devastou a praia. Ondas violentas vinham do mar para quebrar na praia e apesar de ser dia, nada se via além de nuvens escuras bloqueando o sol, parecia noite. Raios e relâmpagos surgiam assustadores vistos das janelas das casas. Os habitantes da pequena cidade estavam aterrorizados com tanta violência da natureza. Enquanto a tempestade assolava a cidade, Miriam ainda esperava na praia, o olhar atento no horizonte à procura de um ponto, um vulto ou uma silhueta de seu marido.
                Logo, a tempestade se foi, o sol voltou a brilhar e o mar que antes estava agitado, agora estava calmo; Parecia um novo dia, mas não para Miriam, pois naquele dia, Robert não voltou do mar. À noite, ela permaneceu na praia, com algum fio de esperança a espera de Robert.
                No dia seguinte, todos os habitantes da pequena cidade se surpreenderam ao ver que Miriam ainda esperava na praia. Robert ainda não voltara da pesca. Alguns navios e lanchas motorizadas foram ao mar a procura de algum vestígio do pescador. Nada encontraram.
                Dos habitantes, alguns tentavam convencê-la a voltar para casa, mas ela não queria sair dali. Outros, convencidos de que Robert se perdera no mar durante a tempestade, ou que morrera afogado, ou mesmo que tenha sido comido por tubarões, tentavam a todo custo convencer Miriam de que seu marido não mais voltaria. Miriam continuou a esperar na praia.
                Tendo se passado o primeiro e o segundo dia, no terceiro, Miriam adoeceu, mas não era sua saúde que estava comprometida, era seu coração. Miriam sentia que faltava um enorme pedaço dela, que aquele momento deveria estar no mar, perdido. Mesmo debilitada, ela continuou esperando. Passaram-se mais três dias e todos já estavam convencidos da morte de Robert, todos exceto Miriam que ainda o esperava. Tinha ainda um fio inquebrável de esperança, o tipo de esperança que vence barreiras, o amor verdadeiro?
                No dia seguinte a esperança de Miriam que estava quase se esvanecendo fora reforçada quando na praia, surgiu a canoa de Robert. Mas, infortúnio, a canoa veio à praia sozinha. Muitos dias depois, eu, com dez ou onze anos de idade, decidi ir à praia, nadar um pouco, ver Miriam ainda sentada na areia, esperando por Robert, talvez dar-lhe um “Bom dia”, Fazer-lhe companhia para que não fique só. Todavia, lá chegando, Miriam estava no chão. Aproximei-me de seu corpo deitado na areia, estava imóvel, a pele com um tom pálido quase azul. As ondas vinham e molhavam-na, às vezes lhe banhava por completo. Miriam estava morta!
                Naquele mesmo momento mais uma surpresa, mas esta um tanto bizarra. Uma onda grande surgiu cobrindo todo o corpo de Miriam. Achei que a onda carregaria o corpo para o mar, mas não! Algo diferente aconteceu; algo incrível, estranho, mas incrível. Quando a onda voltou para o mar, deixando para trás o corpo de Miriam, o meu coração disparou subitamente quando vi que a onda não viera levar o corpo, mas sim, devolver outro.
                Era o cadáver podre de Robert que a onda viera devolver na praia, bem ao lado do corpo de Miriam. A posição dos dois cadáveres, do meu ponto de vista, parecia estar de mãos dadas.
                Assustado, corri o mais rápido que pude para a casa dos meus pais, chegando lá encontrei todos na sala conversando justamente sobre Miriam. Ninguém além de mim sabia que ela se fora, muito menos que Robert voltara. Como dizer o que eu vi sem deixa-los assustados?
                —Pai, Mãe, todo mundo! Venham rápido, Miriam está morta na praia, as ondas estavam quase levando o corpo embora, mas ai veio uma onda grande e deixou o corpo de Robert na praia, Venham rápido! Vocês tem que ver!
                —Está louco menino?! — Olharam-me todos, como se eu fosse algum lunático. Até eu mesmo cheguei a duvidar do que tinha visto. Mesmo assim, meus pais, meus tios e meus irmãos me seguiram até a praia. Caminhamos rápido, pois queríamos ver os cadáveres antes que se amontoasse gente ao redor.

                Logo, já estávamos na praia, porém, não havia nenhum corpo lá,também não havia nenhum sinal de Miram nem de Robert. Meus pais me olharam indignados enquanto voltavam para casa, meus irmãos me chamaram de mentiroso, meus tios estavam indignados comigo. Fiquei sozinho na praia, de cabeça baixa. Eu não era um mentiroso. Nova surpresa. Na areia, avistei dois pares de pegadas caminhando lado a lado até sumirem de vista. Nem tive tempo para segui-las, pois uma nova onda surgiu do mar e as apagou da areia. Um arrepio na espinha me fez estremecer enquanto a onda desfazia aquelas pegadas.

10 de outubro de 2013

Cansado

                              Original : Dominus Salomon
         Revisto e editado por : Victório Anthony

             A porta se abriu abruptamente e todos os olhares dos clientes se voltaram para o homem que acabara de entrar no bar. John caminhou lenta e melancolicamente até o balcão e pediu ao barman uma dose de cerveja, pondo-se rapidamente a beber. Armando, velho amigo de John que já estava bebendo no bar há algum tempo, nota o amigo com o olhar triste e desanimado, parecia deprimido.

            — Minha nossa John! Que cara é essa? — pergunta Armando.

            — Não é nada...

            — Mas, John, você está com uma cara horrível! E olha que eu o conheço há anos! Fale comigo, o que aconteceu?!

            — Eu apenas estou cansado, só isso...

            — Hun, cansado é? Vamos John, pode falar comigo, sou seu amigo dos bons tempos, lembra? Algo o incomoda? Jogue para fora, desabafe!

            — Está certo! Você quer mesmo saber qual é o problema?

            — Quero! Diga logo, a curiosidade já está me matando!

            — O problema é a minha mulher.

            — Sua mulher?! Aquela mulher perfeita?!

            — Sim... Ela vive reclamando de tudo sempre, tudo o que ela faz é reclamar e reclamar. Não importa a hora, não importa o lugar, ela está sempre reclamando! Eu não aguento mais isso! — e tomou um copo inteiro da cerveja num só gole, sentindo o álcool descer rasgando pela garganta. — Eu acordo cedo, vou trabalhar dez horas por dia, cinco dias por semana e sempre quando chego do trabalho cansado, exausto e quase morto, ainda sou obrigado a ouvir a minha mulher reclamando em casa. Cara, você não faz ideia do quanto isso é ruim! Eu acordo com a mulher reclamando e vou dormir com ela ainda reclamando! Gente! Ela é incansável!

            Armando começa a rir discretamente do amigo e os dois são interrompidos pelo barman que ouvia atentamente a conversa:

            — Mas, afinal, do que ela reclama tanto?

            — Reclama que está cansada... 












28 de setembro de 2013

777


Preciso comprar um notebook, odeio escrever pelo celular.





   




Desabafo - Por Salomon





Em minha vida, tive muitas oportunidades.

As primeiras eu confesso, não soube aproveitar.

As seguintes me esforcei mais.

Também falhei.

Nas posteriores aprendi a desistir.

Desistir virou rotina.


E hoje já nem tento mais.


21 de setembro de 2013

A Pequena Bruxinha - Revisado Por Victório Anthony

A PEQUENA BRUXINHA



 Escrito por: Dominus Salomon Lee
 Revisto e editado por: Victório Anthony

            A porta abriu-se bruscamente. A mãe, que lia concentrada um livro no sofá, assustou-se. Sua filha adentrou a casa correndo, fechando a porta atrás de si e largando a mochila em um canto da sala. Chorando apressou-se direto para os braços da mãe:

            — O que foi filha? O que aconteceu?! — perguntou a mãe envolvendo a filha em um abraço consolador.

            A pequena ainda com o rosto afundado no peito da mãe, respondeu:

            — Mãe, lembra-se do feitiço de explodir as coisas que você me ensinou?!

            A mãe fez uma pequena pausa lembrando-se do truque que tentara ensinar a filha há alguns dias. A aula era sobre explodir objetos com um simples estalar de dedos. Sua filha, porém, não era boa aluna.

            — Sim, eu me lembro... Tudo o que você deveria fazer era se concentrar naquilo que queria explodir e estalar os dedos. Muito simples.


            — Não tão simples assim!— disse a filha levantando o rosto para olhar nos olhos da mãe.

            Seus olhos agora expressavam indignação e raiva, deixando sua mãe perplexa. Logo a pequena prosseguiu:

            — Hoje, no ônibus escolar, depois das aulas, uma menina estava ouvindo música no celular sentada bem do meu lado. Aquela maldita... Além da musica estar irritantemente muito alta, era horrível! Ela tinha um péssimo gosto! Havia também varias outras meninas ouvindo música alta no celular. Era insuportável... Eu ia enlouquecer!

            — Acho que agora entendi, você explodiu o celular dela sem querer com o feitiço que lhe ensinei, foi isso?! — indagou a mãe pondo a filha sentada sobre o colo.

            A garota novamente afundou o rosto no peito da mãe tentando conter as lágrimas que lhe molhavam o rosto. E respondeu, soluçando:

            — Era essa minha intenção...

            — Afinal filha, o que foi que aconteceu?!

            — Quando estalei os dedos tentando me concentrar no celular barulhento dela, as meninas... Eu não queria mãe, eu juro que não queria... — aflita, a mãe ficou em silêncio, esperando o que ela queria dizer.
            Após longos segundo, a menina confessou:

            — Não foi o celular que explodiu... Foram as cabeças...





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15 de setembro de 2013

Miniconto - Por Salomon







Havia um velho senhor...
                Por horas ele permaneceu ali, parado e sentado com um livro ente às mãos e a expressão dos seus olhos fixada sobre as paginas.
                Eu estava sentado do seu lado e pude ver bem como ele era. Tinha cabelos brancos, a pele pálida e enrugada, olhos serenos que como já disse, estavam fixos nas paginas do livro. Seu olhar era profundo, concentrado e reflexivo como a de um filosofo ou pensador superdotado. Deveria ser daqueles leitores que se desligam totalmente do mundo ao redor para entrar de cabeça no livro.
                Foi isso que pensei antes de me aproximar mais, mas logo depois, percebi que o velho não respirava e seu coração não batia. Na verdade o senhor estava morto. 






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8 de setembro de 2013

O crime de Mond – Por Salomon

                                            
  LEIA-O TAMBÉM: >>AQUI<<

               O crime de Mond – Por Salomon

                 (meu primeiro Conto policial)



            Subindo as escadas apressadamente, acompanhado de outro policial qualquer, Victor chegou á porta do quarto da vitima. Esta se encontrava ligeiramente aberta de forma que permitiu aos dois homens adentrarem e se dirigirem por entre os outros homens que ali estavam até o banheiro da acomodação, que era o local do crime.
            -O que aconteceu aqui?- Perguntou Victor se dirigindo a mim adentrando ainda mais o banheiro amplamente espaçoso. Logo, já estava varrendo todo o local ao redor com seus olhos de águia que tudo captava e nada deixava despercebido. Seus olhos sempre eram sublimes ofuscados atrás das lentes negras de seus óculos raibam. Notei que como sempre, ainda usava seu inseparável casaco sobre tudo negro por sobre seus ombros largos, caindo até quase em seus joelhos escondendo a arma ponto-40 no coldre que eu tinha certeza que ele levava consigo onde quer que fosse. Seu cabelo negro tinha um ou dois fiozinhos grisalhos, que por descuido vaidoso meu amigo não conseguira ver para cortar e disfarçar a velhice. Seria seus fios de cabelo branco sinal de que meu amigo estava envelhecendo e seus olhos de águia perdendo a capacidade de tudo ver? Por um breve momento receei por isso.
            Ao entrar no banheiro, Victor deparou-se com o que parecia ser uma cena de crime muito comum em nossa profissão. O banheiro estava úmido, eram ainda poucas horas da madrugada e um corpo estava sendo retirado de dentro da banheira que transbordava água. O corpo era de uma linda e jovem moça de pele morena e longos fios de cabelo negro. Tinha a pele límpida, seu corpo era esbelto e provocador. A jovem estava totalmente despida, sinal que morrera durante o banho na banheira cheia d´água. De inicio, alguém citou morte por afogamento, mas havia uma espessa espuma branca saindo por suas narinas e boca, o que não era muito comum em casos de afogamento.
            Somente quando os homens do IML sairam levando o lindo cadáver da jovem moça, voltei-me a mim mesmo para responder ao meu amigo recém-chegado:
            -Olá Victor! Chegou antes que eu pudesse analisar melhor a situação, então creio que não conseguirei dizer muito a respeito desse caso, mas o que eu sei, posso agora mesmo lhe passar. – Aqui fiz uma pequena pausa para olhar em meu bloco de notas- Aqui está! O nome da vitima é Mila. Tem vinte e sete anos e trabalhava em uma loja como atendente e caixa. Tinha um namorado, mas morava sozinha com seu gato preto de estimação.  Ao que parece ela morrera entre as dez horas da noite de ontem e uma da madrugada. –
            -Possível causa da morte?- perguntou Victor fazendo-me parar de repente. Aproximando-se mais da banheira de onde o corpo fora retirada.
            -A única hipótese viável até agora é morte por afogamento, mas precisamos do resultado da autopsia com o Dr. Lee para confirmar isso-.
            -Não foi morte por afogamento- Disse ele- Foi morte por eletrocussão. Você notou que a vitima tinha uma estranha espuma fugindo por sua boca e narinas. Já vi muito disso em casos de suicídio. Estou vendo o objeto que provocou a morte da jovem. – E disse isso apontando para um fio cuja uma das pontas estava diretamente ligada á uma tomada elétrica localizada entre o chuveiro e a banheira, enquanto a outra ponta se perdia submersa dentro da banheira.
            Victor depois de ter retirado seu relógio de pulso e o guardado em seu bolso, dobrava as mangas de seu casaco. Logo percebi sua intenção, ele ia afundar o braço na banheira a fim de retirar o aparelho cuja uma das pontas do fio estava ligada á tomada e a outra submersa na água.
            -VICTOR NÃO!-Gritei- A ÁGUA AINDA DEVE ESTAR ELETROCUTADA!-.
            Mas Victor como uma criança teimosa, e ignorando meu alerta continuou a enfiar seu braço dentro da banheira, afundando-o na água. Eu o olhava esperando vê-lo tomar um enorme choque elétrico, mas isso não aconteceu e Victor tirou seu braço da água segurando um aparelho elétrico muito comum de se barbear.
            -Eis aqui a arma do crime!- Disse ele após tirar o objeto da tomada e entregando-me em mãos pediu para que levasse ao laboratório do Dr. Lee. Victor deu outra rápida olhada ao redor do banheiro à procura de mais pistas que pudessem revelar o que acontecera ali nas horas anteriores. Notei que ele dava maior atenção a uma das paredes então me pus a observa-la também.
            Não havia ninguém mais além de nós dois ali, os outros policiais e alguns homens do corpo de bombeiros esperavam no corredor do prédio. A parede que observávamos atentamente, para mim não queria dizer muito, mas Victor a encarada como se ela fosse o próprio autor do crime. Havia nessa parede uma pia metálica bem conservada e limpa, e ao seu lado uma base que servia como suporte para objetos que a morta usava para cuidar de sua vaidade como creme para cabelo, sabonetes, escova de dente etc. Logo acima dessa base de suporte desses objetos, havia uma janelinha com aproximadamente meio metro de diâmetro quadrado. Pequena e alta demais para alguém passar por ela. Não havia nenhuma outra janela no cômodo inteiro além dessa.
Entretanto. Victor saiu do banheiro, entrando na alcova da vitima. Lá havia uma cama que se encontrava quase que totalmente revirada. Os lençóis e a colcha estavam caídos no chão enquanto os dois travesseiros e o colchão estavam desajustados fora do lugar. Meu misterioso amigo como sempre se mantinha em um silêncio perturbador que logo tratei de quebrar expondo minha visão dos fatos:
-Acho realmente que foi suicídio!-
-Muito cedo para conclusões precipitadas! – disse ele mexendo em um dos travesseiros. E Removendo-o do local sobre a cama, encontrou uma nova pista, um pequeno aparelho celular.
-Veja bem Victor a vitima morava sozinha, e isso indica isolação, o que nos leva a crer que ela tinha problemas para se relacionar com a sociedade, ou seja: Depressão. Fim de caso Victor, a vitima se matou! Ganhei essa, há ha!- Mas Victor se mantinha frio e cauteloso mexendo no aparelho celular e avaliando suas expressões faciais notei que algo o intrigava muito.
-Sejamos mais racionais meu amigo, muitas pessoas vivem isoladas, mas nem por isso são depressivas, além disso, você está deixando muitos fatores escaparem. – Aqui ele disse olhou para mim com seus olhos por cima das lentes negras de seus óculos e complementou - depois de todos esses anos ao meu lado não conseguiu aprender nada? – Mas antes que eu pudesse responder, fui subitamente impedido pela chegada de um dos homens da polícia que anunciava:
            -Senhores! Encontramos uma testemunha que disse ter visto alguém sair do quarto pouco antes da meia noite, creio que talvez seja de total interesse de vocês verem isso melhor-. Victor Voltou seu olhar para o policial e disse:
            -Mande a testemunha dormir e descansar um pouco, pois amanhã vamos interroga-la. Agora nós temos uma suspeita que devemos imediatamente investigar. - e voltando para mim, falou- Vamos! Precisamos chegar o mais rápido possível na casa do superintendente Kou.  Por um instante, sem nada entender, fitei-o de volta e perguntei:
            -Mas Victor! O que vamos fazer a essa hora da madrugada na casa de nosso superior?- E Victor tirando os óculos escuros e guardando-o no bolso do casaco respondeu-me olhando seriamente nos olhos:
            -O namorado da vitima deixou este celular aqui na cena do crime, e ele pertence ao filho de nosso chefe Júlio. Agora mais alguma pergunta?-
            Novamente o silêncio predominou no aposento e vi-me diante de mais um caso que exigia maior atenção e cuidado. O dia ainda mal começara e tão cedo de madrugada, tanto a minha quanto a capacidade intelectual de Victor eram colocados á prova a fim de chegar ao fim daquele caso. Eu como sempre estava perdido em meio as minhas próprias conclusões e poucas informações fornecidas pelas pistas até então encontradas na cena do crime, enquanto meu amigo e parceiro de investigação, Victor se mantinha frio e calculista, sempre pensativo e refletindo acima de meu nível.            
            Chegamos rápido no carro de Victor á casa do nosso superior e superintendente. Lá contamos ao lorde o que ocorrera até então e ele muito decepcionado não queria acreditar que seu filho estava envolvido com a morte da jovem moça, alegando que jamais esperaria tal desconfortável noticia sobre seu filho. Também não teve opção á não ser permitir-nos levar o jovem garoto para a delegacia onde o interrogaríamos a respeito do crime que culminara na morte de sua namorada.
            Já eram aproximadamente oito horas da manhã quando chegamos à delegacia, levando conosco o jovem rapaz de cabelo curto bem aparado e cavanhaque no queixo. Também era robusto e tinhas as feições faciais rígidas como as de seu pai. Vestia uma simples bermuda ou um short muito simples e comum entre os jovens daquela idade junto com uma camiseta regata que destacava bem seus braços fortes, resultado de muito suprimento alimentar e anos e anos de academia. Tinha o olhar apreensivo e, contudo mostrava-se aparentemente chocado, isso depois de citarmos a morte de sua namorada. De certa forma eu não sabia mais em que acreditar, pois se o jovem ali era culpado ou não da morte da jovem, então ele deveria ser um ótimo ator, pois até algumas tímidas lagrimas derramara após saber de sua morte. Mas mesmo assim, ele era um suspeito, pois como a pessoa mais próxima da vitima, tinha fortes indícios como autor da morte da jovem, e a pista que nos levara a essa conclusão era seu celular encontrado na cama da vitima. Levamo-nos direto para a sala onde fazemos o interrogatório, onde permaneceu quieto e calado até a entrada de seu pai acompanhado de Victor, enquanto eu os observava através do espelho dupla face e os ouvia pelo interfone estrategicamente posicionado na cadeira onde o suspeito estava.
            A todo o momento, Júlio o nosso suspeito dizia que era inocente e complementava dizendo que estava abalado com a morte de sua namorada. Seu pai demonstrava-se muito abatido e assustado com tudo isso. Jamais antes pensara que seu prezado filho pudesse algum dia ser suspeito de um crime.  O superintendente estava muito preocupado, pois era notável que assim como eu naquele momento, não sabia mais em que acreditar, se seu filho era ou não responsável pela morte da jovem e bela moça.
            Victor, implacável e frio como sempre o questionava fazendo perguntas como: Havia motivos que o levariam a cometer assassinato? Como namorados vocês discutiam muito?  Onde estava na noite anterior? Você pode me explicar como o seu celular foi parar na casa dela?...
            Mas Júlio chorando negava a todo o momento ser o autor do crime, e também se defendia dizendo que frequentemente a visitava como todo bom namorado faz, alegando logo em seguida que só continuaria respondendo na presença de seu advogado. Entretanto, o superintendente muito cabisbaixo e com o olhar triste sobre o filho, deixou a sala de interrogatório sem nada dizer. Fora da sala foi direto ao meu encontro e com mutua tristeza no olhar disse-me:
            -Eu não sei em que acreditar. Esse moleque nunca me deu trabalho antes, e agora ele me vem com essa na intenção de me matar do coração- e colocando a mão no peito continuou- oh deus onde foi que eu errei?-
            -Senhor! Ainda não sabemos ao certo se foi ou não morte criminal, pois há também a hipótese de suicídio ou até mesmo morte acidental. – Disse-lhe pondo a mão no ombro em uma tentativa inútil de conforta-lo.
            Logo se se juntou a nós um policial acompanhado de uma velhinha decrépita que aparentava não ter mais que setenta anos, vestindo um pesado vestido de lã e um casaco de linho para proteger-se do frio da manhã gelada, além de um cachecol envolto do pescoço.
            -Aqui está a testemunha que disse antes- Anunciou o policial que a acompanhava e dando meia volta partindo de volta para seu posto como patrulheiro. Enquanto Victor do lado de dentro da sala de interrogatórios entrevistava o suspeito, eu do lado de fora, entrevistava a testemunha do crime:
            -Conte-nos minha senhora, tudo o que sabe e que não sabemos a respeito da noite anterior- E a velha dispôs-se á narrar:
            -Sim claro! Vou então começar a partir do momento em que eu tentava dormir em minha aquecida e confortável cama de mosqueteiro, mas eu não conseguia pregar os olhos, nem mesmo depois de ter tomado minhas pílulas do sono. De fato eu não conseguia dormir e isso devido aos barulhos incessantes no quarto vizinho ao meu que pertence a jovem moça que recém partira dessa para melhor. Pois bem. Havia barulho, muito barulho entre pancadas e gritos de dor, uma barulheira infernal que não me deixava ter o merecido descanso do sono. Nunca antes houve tanto barulho vindo do quarto daquela jovem que eu julgava ser tão “quietinha”. Então, logo eu desisti de dormir e fui assistir tevê. Já se passava das dez e meia quando notei que o barulho havia cessado, e eu curiosa resolvi ver o que se sucedia ali. Foi então que abri a porta do meu cômodo e vi pela pequena fresta vi o jovem moço que ali está – Apontou para Júlio através do espelho duplo face -Sair pela porta da frente do quarto da moça, e então descer de forma sorrateira e silenciosamente a escadaria até o andar térreo onde deve ter ido para sua casa.
            Depois disso, tendo visto que a noite voltara à calmaria como de costume, voltei para a cama onde pude desfrutar de adoráveis sonhos por algumas poucas horas. Mas logo fui acordada subitamente por novos barulhos vindos do quarto vizinho, mas só que dessa vez, quando fui investigar, já eram os próprios policiais e bombeiros levando o corpo de minha adorável e barulhenta vizinha. Fiquei assustada ao vê-la daquela forma horrorosa, morta. –
            Após o relato da velha senil, eu pude ver que o superintendente escondia o rosto com as mãos para disfarçar as lágrimas que lhe fugiam, e desolado disse:
            -Não há mais duvidas! Meu filho a matou, agora sou forçado a conviver com esta vergonha em minha família. Oh Deus, novamente pergunto a ti, onde foi que eu errei?- E de cabeça baixa, retirou-se, deixando-me em companhia da velha. Em nada mais eu poderia consola-lo, pois até eu mesmo já estava quase totalmente convencido de que seu filho era um criminoso. Quanto à velha senhora, perguntei intrigado:
            -Então não foi você que chamou a policia aquela hora da madrugada?-
            -Não – Disse ela – Como eu disse, eles já estavam lá quando acordei.
            -Hum, então alguém deve ter chamado a policia, mas quem?- E ficamos ali nos entre olhando pensando nas inúmeras possibilidades, motivos e razões que possivelmente poderiam ter ligação com a morte da jovem.








                                                       †††







         Doutor Lee havia nos convocado após o interrogatório para comparecer imediatamente em seu laboratório onde o corpo da vitima fora analisado pela autopsia. Lá encontramos o corpo com o peito aberto expondo todo seu interior a nossa vista. Devo confessar que mesmo diante de brutal mutilação, seu rosto ainda era belo e encantador.
            Lee usava assim como Victor, usava seu jaleco preto, recusando o convencional de cor branca. Isso sempre me gerou duvidas, mas respeitava-os por escolher o preto em suas indumentárias. Logo se pôs a nos revelar o resultado da autopsia morta:
            -Olá amigos, chamei-os secretamente de nosso superintendente por que sei que esse caso, diferente dos outros envolve alguém próximo a nós, o filho de ninguém menos do que o homem que assina os nossos cheques, e por esse motivo, devemos dar maior atenção a esse caso e sermos precisos em nossas conclusões.
            Bom... Após minha vistoria no corpo da jovem moça acabei descobrindo o real fator de sua morte. E a vitima realmente morrera por eletrocussão da agua provocado pelo aparelho de barbear que ligado á tomada elétrica e entrando em contado com a banheira cheia de agua resultou na morte da jovem, também fazendo sua boca espumar. Mas não é só isso. Também descobri através de resíduos de sêmen em sua boca que a morta teve relações sexuais pouco antes da morte. E tem mais, vejam isto-...
           
           
            Lee foi até o balcão onde tirou um pote de vidro transparente contendo um liquido viscoso que continha em seu centro um pequeno feto de poucos centímetros de cumprimento.  
            -Ela estava gravida de Júlio!- Complementou Lee exibindo o feto dentro do pote- Também descobri resíduos de pílulas de antidepressivos. Obviamente isso indica que a morta, quando ainda viva, sofria de depressão. Isso é tudo o que seu corpo pode me revelar, mas foi o aparelho de barbear que me deu mais informações a respeito do caso que de inicio julguei antecipadamente ser suicídio ou acidental.
            Eu achava que pelo que me foi informado sobre o banheiro da vitima, o barbeador que por distração estava ligado na tomada e deveria estar sobre a base que vi nas fotos sobre a banheira, devido à potência alta de seu motor interno, vibrara tão fortemente ao ponto de ter-se movido sozinho até cair dentro da banheira. Então para ter certeza dessa conclusão, como podem ver ali, montei um cenário quase que idêntico ao banheiro, com base de suporte para o aparelho e a banheira logo abaixo. Entretanto, quando coloquei o aparelho á prova, mesmo em máxima potência, ele se manteve imóvel em seu lugar, sua posição se manteve inalterável. –
            -Isso descarta a possibilidade de morte acidental não é mesmo Doutor?- Indagou Victor cruzando os braços.
            -Eu diria que sim, mas ainda resta saber se fora suicídio ou homicídio- Disse o Doutor.
            -E o que o senhor acha Doutor?-
            -Eu nada posso afirmar a respeito disso, mas o barbeador me deu outra pista que julgo muito importante para o desfecho desse caso. –
            -E que pista é essa Doutor?- Perguntei inquieto suando frio diante de tamanha tensão. E o doutor olhando-me seriamente nos olhos disse:
            -Eu investiguei mais sobre o barbeador e acabei descobrindo que ele pertence á Júlio-.
            Aquela altura para mim, não havia mais duvidas, eu realmente já estava convencido de que Julião o filho de nosso chefe era de fato o autor da morte da jovem sua namorada. Todas as pistas e fatos apontavam para ele como principal suspeito. Também já formulara em minha mente o possível motivo para que ele cometesse tal crime.
            Ao sairmos do laboratório, Victor e eu fomos ao seu gabinete pessoal, onde pudemos avaliar e questionarmos melhor sobre o caso.
            -Então é isso- Disse-lhe inconformado- Júlio é realmente um assassino, não nos resta mais duvidas! A proposito o que ele disse no interrogatório?-
            Victor estava sentado em sua grande e confortável cadeira de couro acolchoado atrás de sua mesa de escritório teclando distraído algumas letras em seu notebook. Quando me virei para ver o que ele fazia ali, surpreendi-me ao vê-lo acessar interessadamente um site de compras online onde estava no tópico sobre rações para gatos.
            -Victor! Eu não sabia que criava gatos- Articulei.
            -Atualmente eu não crio, mas pretendo criar um. E sobre Júlio, ele apenas me disse que realmente amava sua namorada, nada, além disso. Você chegou á alguma conclusão? –
            -Ah sim, sim eu creio que cheguei ao fim desse caso, e devo dizer que estou decepcionado com você Victor, está muito distraído e não conseguiu resolver esse caso antes de mim, parece que está perdendo o jeito. Bom eu concluo que Júlio é realmente culpado, pois ele havia razões e oportunidades para cometer o crime. –
            -Razões? E quais seriam?- Indagou Victor ainda com o olhar atento ao monitor do notebook.
            -Júlio mentiu para você no interrogatório quando disse que amava a vitima, pois na noite do crime, sabendo ele que ela esperava um filho seu, sabendo que seu pai não suportaria saber que seu filho ainda muito jovem seria papai também, tratou logo de mata-la para que não tivesse esse filho, e fez isso tudo parecer com suicídio, mas ele não contava com a testemunha que me foi muito útil e valiosa nessa questão-.  Após minha explicação, Victor desabou a rir como se o que eu acabara de contar ali fosse a mais hilária das piadas já contadas.
            -Qual e a graça?- Perguntei revoltado e intrigado com o rosto vermelho sem nada entender. Victor após seu ataque de risos se recuperou e levantando-se da cadeira, foi em direção ao cabideiro onde estava seu inseparável casaco negro, retirando-o dali e pondo sobre seus largos ombros altos. Após colocar os óculos escuros disse-me:
            -Esse seu ponto de vista ridículo Sr. Salomon, é totalmente ridículo hahaha, como é Hilário! É por isso que gosto de trabalhar com você. Você é engraçado, e anima o meu dia. Hahaha...
            -Então você discorda que... - E antes que eu pudesse terminar a frase, Victor interferiu:
            -Discordo que Júlio seja um assassino, pois ele realmente amava sua namorada assim como amaria seu futuro filho se o tivesse-. Victor saiu do gabinete e se dirigia rumo á saída do prédio, indo em direção ao estacionamento onde seu Fiat negro quatro portas o aguardava. Eu o seguia ainda mais intrigado. Logo ele chegou ao carro e adentrando-o convidou-me ao banco de passageiro.
            - Então você já solucionou o caso?- Perguntei-lhe enquanto entrava no carro e colocando o cinto de segurança, sabendo que dali á poucos instantes, estaríamos em alta velocidade pelas ruas da cidade. (Era assim que Victor dirigia, como um louco).
            -Sim e não!- Respondeu ele.
            Victor ligou o carro e foi sem perder tempo pisando fundo no acelerador, conduzindo com habilidade o veiculo, desviando de outros carros e pedestres, fazendo curvas perigosas em ata velocidade que nem um piloto de corrida profissional.
            -Como assim, “Sim e não”? – Perguntei sem folego enquanto me segurava como podia dentro do carro- Explica-me, por favor-.
            -Falta ainda pegar o verdadeiro autor do crime!- Disse ele parando o carro frente a centro comercial, e quando olhei pelo vidro escuro do carro.
            -Onde estamos indo?- perguntei mais uma vez.
            -Pet Shop!- disse ele saindo do carro e entrando no estabelecimento especializado em animais.
            Em todos os anos que trabalhei ao lado de Victor, jamais consegui compreender seu modo de pensar, nem mesmo conseguia compreender certas exterioridades que ele tinha consigo. Mas mesmo assim, sempre depositei total confiança em suas habilidades extraordinárias de dedução e raciocínio. Ao seu lado, eu não deixava de me sentir o Dr. Watson nos contos policiais de Arthur Conan Doyle, acompanhando de perto o modo como Sherlock Holmes chegava ao final de seus casos policiais através de pistas e deduções precisas.
            Após alguns minutos, Victor saiu da loja carregando um enorme saco de ração, e com pouca dificuldade, carregou-o até o porta-malas, voltando em seguida para dentro do carro, logo já estávamos novamente em alta velocidade desviando de carros e pedestres, rumo ao centro da cidade onde ficava o prédio que encontramos a moça morta. Rapidamente chegamos ao local. Victor correra tanto que senti meu sangue gelar em minhas veias. Ele tinha quase tanta habilidade no volante quando como intelectual.
            Sem perder tempo, descemos do carro estacionado na porta do prédio, e Victor foi logo retirando o saco de ração do porta-malas. Minutos depois já estávamos subindo os muitos degraus do prédio até o andar da vitima. Andamos pouco pelo corredor até chegarmos á porta onde ainda estava conservada a faixa amarela com os dizeres: “Cena de crime, não ultrapasse”.
            Entramos. Era o quarto da jovem, e ainda se mantinha do mesmo jeito que o deixamos, cada objeto em seu devido lugar, nada fora revirado e nenhuma alteração fora feita.
            -Victor! Porque estamos aqui? Oque vai fazer com isso?-Perguntei-lhe apontando o saco de ração.
            Victor foi direto ao banheiro onde encontramos o corpo, e lá chegando, subiu no assento do sanitário e abriu a pequena janelinha sobre o chuveiro, que fez uma leve brisa adentrar no cômodo.  Em seguida, abriu no dente o saco de ração que levava consigo, e despejou todo o conteúdo sobre a base na parede que servia de suporte para os produtos vaidosos da antiga dona.
            -Veja e verá- Disse Victor com ar misterioso terminando de despejar toda a ração na base e tirando do casaco um aparelho de barbear elétrico, semelhante ao anterior encontrado dentro da banheira. Também o depositou sobre a base de suporte logo acima da banheira. Após isto ele se afastou, e cruzou os braços como que esperando algo acontecer ali. Eu observava a tudo atentamente da porta do banheiro, contudo, sem nada a entender.
            Tendo se passado exatos três minutos, ouvimos um miado muito distinto, inconfundível, era um gato que sentindo o cheiro daquela ração que Victor depositara ali, aproximava-se rapidamente. Logo o estranho felino de pelos negros saltou da janelinha sobre o chuveiro aterrissando graciosamente sobre a base de suporte. Nesse ato, notei que o bichano desastrosamente havia deixado o aparelho de se barbear cair dentro da banheira.
            Victor não perdeu tempo, foi logo agarrando o gato e o segurando pelo dorso, virou-se para mim exibindo o felino dizendo:
            -Eis aqui o verdadeiro autor do crime!- em seguida colocou-o no braço e começou a acaricia-lo. O gato de grandes olhos verdes começou a ronronar.
                                              



                                                    †††
            Quando a noite chegou, parecia que tudo já estava esclarecido e resolvido. A inocência de Júlio foi provada, mas seu pai mesmo pouco mais aliviado com o filho, ainda demonstrava-se muito decepcionado pelo fato de ele não ter contado sobre o filho antes. Ambos decidiram passar o resto da noite juntos a falar sobre isso.
            Enquanto isso, Victor e eu continuávamos a debater o caso juntos em seu gabinete pessoal. Muito intrigado ainda, questionei-o sobre como ele conseguiu chegar ao final de mais um caso tão sublime e de forma tão racional.
            -Ora! –Dizia ele enquanto fazia carinho no gato negro de olhos verdes sobre seu colo que ronronava agradecido pelo carinho- Tudo muito simples, e de cara eu já o resolvera. Devo revelar aqui meu amigo as verdadeiras pistas que mereciam maior atenção, e uma delas que você deixou passar despercebido, foi exatamente o gato preto. Lembra quando citou que a morta morava sozinha, mas tinha como companhia um gato? E viu também como o apartamento da jovem era fechado e abafado? Agora você deveria saber que essas criaturas em geral gostam de liberdade, de ar livre. Então só havia uma forma para esse felino transitar de dentro do cômodo para fora, e vice versa, que era exatamente através da janelinha do banheiro. Assim o gato transitava sempre a hora que quisesse. Primeiro saltando sobre a base de suporte de produtos, e depois direto para a janelinha que lhe dava acesso aos telhados vizinhos. O problema de fato foi o descuido de a moça ter deixado à máquina ligada na hora em que tomava banho na banheira. O gato não teve culpa se o objeto estava em seu caminho para a liberdade. Contudo devo dizer que isso foi um trágico acidente que poderia ter sido facilmente evitado.
            -Tá, mas... Por que Júlio não quis falar nada no interrogatório?- Indaguei.
            -Ora, mas ele falou. Disse-me que amava a jovem moça e que nunca a mataria. Também me revelou que sabia que a mesma estava gravida dele, e que pretendia ter esse filho com a moça. Mas não o podia revelar na frente de seu pai, pois sabia que ele ficaria muito bravo e decepcionado. Assim após a saída de seu pai da sala de interrogatório, ele abriu o jogo comigo. De fato ele era inocente, aliás, um bom rapaz, foi ele que emprestou o aparelho para a namorada, não queira saber por quê. Agora o celular deixado na cena do crime foi mera distração do jovem.
            -Hum... Isso faz sentido, mas e a testemunha? Ela disse ter ouvido gritos de dor e pancadaria no quarto na noite o crime e depois viu o garoto sair sorrateiramente do prédio. - Após estas minhas palavras, Victor novamente desabou a rir por longos segundos. Algum tempo depois recuperou o folego e disse:
           
-Gemidos! E não gritos, o que você acha que dois jovens apaixonados estariam fazendo sozinhos em um quarto à noite, que deixaria na manhã seguinte os lençóis o colchão e os travesseiros espatifados sobre a cama? Hahaha você me mata de rir Salomon, essa velha não é testemunha nem pode ser considerada importante no caso. Também acredito que ela não gostava tanto assim de sua vizinha, e sabia que o casal estava praticando orgia. -
            -Nossa! Então, pelo menos ela morreu satisfeita hahaha- Disse por fim rindo de mim mesmo. – Mas Victor! Ainda há algo me intrigando bastante!-
            -E o que seria?-
            -É a policia! Como eles conseguiram chega lá tão rápido se não foi à velha que os chamou? Alguém deve ter chamado!-
            Victor ainda acariciando o felino em seu o colo, fitou-me com os olhos por sobre as lentes negras de seus óculos com o ar sério e frio de costume dizendo:
            -Boa pergunta meu amigo! No entanto a resposta é bem simples. Foram os próprios bombeiros que chamaram a policia. O prédio possui em suas instalações elétricas um mecanismo ligado direto com o corpo de bombeiros, que indica que no prédio em certo andar ocorreu um curto circuito que poderia resultar em um desastroso incêndio. Esse mecanismo só existe nos prédios construídos mais recentemente e ajudou a evitar muitos incêndios por aí. Foi através desse mecanismo que eles souberam que no quarto da vitima ocorrera um curto circuito quando o aparelho ligado á tomada entrou em contato com a agua da banheira, culminando na morte da jovem moça. Quando eles chegaram aqui, e se depararam com a jovem moça morta na banheira, rapidamente chamaram a policia. -
            Ao final dessa explicação dada por Victor, eu não tinha mais duvidas. O caso da morta na banheira se encerrava ali e o fim do expediente estava já havia acabado. Era chegada a hora de voltar para minha casa. Enquanto me agasalhava com um simples casaco de couro, observava Victor acariciando o felino.
            -Antes de ir, tenho só mais uma duvida!- Disse. - Oque vai fazer com o autor do crime? –
            -Vou adota-lo como minha mascote! Ainda não tem nome, sugere algum? –. Após um breve momento em silencio, respondi:
            -“Mond”!-
            -Mond?-
            -É, fica com pronuncia “munth” que significa luar em alemão-. Victor pôs-se a rir de mim mais uma vez, mas logo cessou a gargalhada e pronunciou:
      -Que porra de nome é esse? Hahaha, mas tudo bem! Ele se chamará Mond!- Disse isso voltando a olhar para o gato sobre suas pernas, acariciando seu pelo com a mão, enquanto eu voltava para casa a fim de descansar e aguardar o proximo caso.
                                                    


                                             FIM